Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Fundo Sem Garantia

 

Um pergunta para os trabalhadores que estiverem lendo esse post:

Quanto tempo entre a demissão e a empresa lhes ter entregue a chave para o saque do FGTS?

 

Horas? Dias? Semanas? Geralmente, após a homologação, existe a possibilidade de passar no banco no mesmo dia e fazer o saque. Basta ter a chave. Mas aí o que você faz quando a empresa some com o chaveiro?

 

Em abril, enquanto eu ainda estava empregado, houve dois saques na minha conta do FGTS. Procurei saber o que aconteceu e um contador me explicou que a empresa havia pedido uma chave pra mim mesmo antes da minha demissão e esse pedido aparece em forma de saque quando puxamos o extrato da conta. E que eu não me preocupasse porque o dinheiro estava lá, e voltaria a aparecer intacto no extrato quando aquela chave fosse cancelada e outra fosse pedida. 

 

Em Junho fui demitido. A homologação atrasou um mês (isso mesmo) e só foi assinada no início de Julho. Como a chave anterior precisou ser cancelada, outra deveria ser feita e eu tive que reenviar todos os documentos necessários pra isso. Eles foram enviados.

 

Algo me dizia que uma vez demitido e homologado, eu não teria mais qualquer relevância pra empresa. E foi dito e feito. Hoje é o primeiro dia de Agosto e até agora, só recebo respostas evasivas sobre a minha chave. Minha demissão vai alcançar o aniversário de dois meses e nada de FGTS. Por tabela, nada de seguro desemprego. 

 

O que fazer numa situação dessas? Porquê alguém deve ficar pedindo por favor por um direito que lhe cabe? 

 

O pior é que o tom de voz de quem está do outro lado da questão é sempre condescendente, como aquele que usamos pra nos livrar dos pedintes na rua. 

 

Eu não sou um pedinte. Não preciso medingar pelo que é meu. Então porque isso?

 

Sempre fui acusado do meu excesso de tolerância. Eu nunca achei que ser paciente e discreto fosse um defeito, mas é impressionante o número de situações em que tentam me passar pra trás baseados na simples informação de que eu não gosto de conflitos. 

 

Eu não quero ter que mudar. Não quero ter que ficar mais cínico, mais arrogante, mais turbulento... Simplesmente pra evitar o ataque dos oportunistas. Mas também não quero que tirem de mim meus direitos, minhas posses, meu orgulho... Até mesmo meus textos. 

 

Estou cansado. E triste. Porque parece que só mesmo uma guerra vai resolver essa questão. E eu sou daqueles que prefere a diplomacia e não a força bélica. 

 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 18:47
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Domingo, 22 de Abril de 2012

Titanic 3D

Em janeiro de 1999 eu entrei num cinema do shopping de Nova Iguaçu para assistir - sem nenhuma informação prévia - o filme sobre o naufrágio do Titanic. Três horas mais tarde, eu saía como se tivesse vivido uma experiência religiosa.

 

 

Durante meses eu só pensava nesse filme. Ele virou uma obsessão absoluta e uma referência para o quanto grandiosa uma experiência cinematográfica pode ser. 

 

Esquecendo a crítica conservadora - que rejeita com desequilíbrio o cinema de "efeitos especiais" - tudo a respeito do longa é fantástico. Desde seu roteiro esperto e mercadológico (o que é uma qualidade, comecemos a aceitar isso) até a maneira sensível com a qual a fantasia serviu à realidade. Impossível não ficar maravilhado com uma reprodução tão fiel de um evento catastrófico real. 

 

Eis que agora, em 2012, na véspera do aniversário da tragédia, volto para reviver a experiência. O 3D é o de menos, acreditem. Esse filme é tão poderoso que nada parece deficitário nele. O 3D nem somar, soma, porque Titanic funciona sozinho. Na TV, no VHS, no DVD, sobretudo na telona. Foi uma honra ter novamente essa chance.

 

Abaixo, um vídeo hilário brincando com a reestreia, juntando elementos de George Lucas, Michael Bay e J.J. Abrams ao filme. 

 

 
If you jump, I jump!
Dobrado Por Henrique Haddefinir às 23:39
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

Tudo que aconteceu antes: O Serialesco 2011

Previously on his life:

 

2011 começou com a boa e velha queima de fogos de sempre, mas efetivamente, o ano não começa mesmo no final da contagem regressiva.

 

- 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2...

 

Ele tem uma grave tradição de datas comemorativas fracassadas e um reveillón sem mágoas e tristezas já é uma vitória. De todo jeito, janeiro se arrasta com dias contados sem parecer concreto, fazendo com que os efeitos do inferno astral permaneçam cada vez mais notáveis.

 

Inferno Astral é como se chama

o período de 30 dias situados

antes do dia do aniversário e

que é conhecido pela turbulência

e atribulação. É como uma TPM

muito longa e neurótica.


No entanto, após o apogeu da concretização das superstições astrológicas, acontece uma reviravolta inesperada, e no episódio “O Aniversário Relutante”, uma festa surpresa se anuncia. Organizada pelos oriundos da Cia Pigmentus, com bolo e brigadeiro, a festa tem ausências sentidas, mas é cheia de presenças necessárias.

 


 

Fevereiro não é mês de carnaval para ele, por isso, é mais importante rever os velhos e melhores amigos. No episódio “Como seria se fosse sempre assim”, Roberta, Rosemary e Maria Isabel Faustino, retornam para uma participação especial e matam as saudades dos fãs.

 

Roberta e Rosemary entraram

na série na segunda temporada, em 1995.

Maria Isabel entrou mais tarde, em 1998.

Ambas permaneceram no elenco fixo até

a décima temporada, em 2003, passando

a fazer participações especialíssimas depois

que a série mudou de cenário.



Durante poucos dias, reforçaram os conceitos de amizade e fizeram todos sentirem falta de outros e importantes membros dessa “era de ouro”. Novas promessas de outras participações foram feitas.

 


 

No episódio “Apenas períodos longos”, um novo semestre começa na Faculdade de Ciências, Filosofia e Letras de Macaé. Esse novo começo anuncia uma série de possibilidades marcantes, sobretudo porque ao lado de Monique Bomfim, Milene Sousa, Lauro Portela e Ana Carolina Alcântara, o quadro de interação de maior audiência da temporada passada está de volta.

 

No episódio “Calçada da Fama”, os quatro membros do clube são desafiados nas sempre interessantes aulas de Luiz Guaracy. Começa então o início da ascensão definitiva. O episódio termina com a certeza de que o sucesso pode acarretar mitologias.

 

A previsão se confirma no episódio “Lolita”, em que o grupo compete na Primeira Mostra Áudio Visual da FAFIMA. A competição não oferece grandes benefícios físicos, mas acarreta uma rede de reações que se expande para além das premiações. No entanto, o grupo faz um trabalho impecável e se torna o favorito.

 


 

Como merecido, o grupo fatura o primeiro lugar, além dos prêmios de direção e concepção. Sem que soubessem, faturam também o prêmio de “Notáveis Improváveis” e têm seus rostos marcados e cobrados.

 

O sucesso do episódio especial de Natal, exibido ainda em 2010, provoca uma nova aventura textual do nosso protagonista e contra as previsões mais otimistas, ele ganha a chance de escrever também a Via Sacra da cidade. Mais uma vez o grande público fica diante de uma de suas criações. O episódio “A Volta dos Franciscos” recupera o espírito da obra anterior, mas infelizmente não garante a reunião de todos os atores que participaram do especial de Natal.

 


 

Essa inacreditável notoriedade provoca novos convites que prometem alavancar o programa no futuro.

 

Como souvenir para as horas de necessidade alegórica, ele teve nesse primeiro semestre muitas alegrias televisivas e GLEE acabou se tornando um bom exemplo de catarse. A cena em que ele assiste ao baile de formatura que coroa Kurt e Karofsky como “rei e rei” da noite, acabou se tornando uma referência metalinguística e reafirmou a paixão do nosso protagonista pela confortável fantasia que permeia a vida.

 


 

A influência da série GLEE acabou sendo só mais uma dentro desse maravilhoso universo seriado que é parte tão importante da vida dele. E esse mundo também se anuncia como plot determinante na próxima metade da temporada.

 

O último episódio antes do hiato, “Nada Importante Aconteceu Hoje”, termina com ele recebendo uma inesperada proposta.

 


 

A temporada se reinicia com o episódio “Dibs”, que mostra nosso protagonista sendo convidado por um blog sobre séries, para escrever resenhas e textos temáticos. O convite cai como um presente dos céus, já que o garoto do brejo nunca sonhou que chegaria tão longe nessa bolha virtual que já fazia parte da vida de tanta gente. Ser lido por muitos seria tão maravilhoso que ele aceitou de cara.

 

O problema é que escrever sobre suas séries favoritas estava fora de cogitação. Todas já tinham “dono” no site. Ele então fica encarregado de duas séries com quase zero de popularidade: Haven e Alphas. A experiência, no entanto, mesmo que limitada, foi desbravadora.

 


 


 

Como as dimensões financeiras dele nunca foram muito contentadoras, no episódio “Fast” acompanhamos sua rotina insana para conseguir cumprir esses compromissos textuais. Sem grana pra instalar net em casa e dependendo do PC do trabalho, ele começa uma maratona para conseguir alcançar todas as séries mais importantes do momento e ficar em dia com todas elas.

 

 

Como vimos nas temporadas anteriores,

ele adora comprar boxes com temporadas

de suas séries prediletas. Para conseguir

pagar o preço delas, esperava pacientemente

que eles baixassem. Isso sempre significava

ver tudo com um atraso de até dois anos.

 

  

Ciente de que para escrever sobre séries realmente relevantes ele precisava confiar em novas estreias, nosso protagonista providencia a reserva (ou Dibs) de algumas produções promissoras.

 

No meio de todo esse novo turbilhão, as relações acabam afetadas, claro. Como consequência, então, o capítulo das tensões afetivas acaba sendo uma realidade. Em “Do lado de Dentro”, brigas e indisposições colocam-no no centro de um furacão emocional.

 

Na temporada anterior, vimos a coroação de suas capacidades autorais com “Cômodos”. Já aqui, no episódio “Cordel do Bando Aloprado”, ele ganha a encomenda de uma adaptação e nasce então “O Lendário Bando de Maria Urtigão e a Vaca Lerdeza”.

 


 

O prazer de ver uma nova criação ganhando vida é incomensurável. E isso vem quase ao mesmo tempo em que outras apresentações teatrais dentro da faculdade vão ganhando espaço.

 

Mas “Cômodos” não sai de foco e na trilogia de episódios chamada “Maktub On The Road”, uma grande viagem em grupo eleva a série a mais um patamar de críticas positivas. A Cia Pigmentus parte para três festivais em três extremos geográficos, e todas as nuances dessa investida são apresentadas com maestria pelos roteiros.

 

Em Três Rios, a constatação de frágeis relações que se afirmam em nome da diplomacia. Em Varginha, as delícias de uma vitória depois de tantas lutas. Em Caxias, um erro cometido em nome da vivência de experiências.

 

 

A trilogia é ambiciosa. No meio desses acontecimentos, o retorno de mais alguns nomes da época clássica da série. Nice e Lídia ganham uma nova participação. Nice, vivendo infelizmente as amarguras de um rompimento e Lídia, as dificuldades de uma realidade muito intensa. Cada uma delas, transmitindo suas percepções e reflexões com maestria. Como bônus, Geovanna, a filha de Lídia, apresentando-se num momento especial.


     

 

A trilogia se encerra com um encontro de gerações. Roberta, Nice e Maria Isabel vão assistir ao espetáculo dele e no meio de todo esse profundo sentimento de gratidão, esse arco se encerra deliciosamente.

 

As estreias infantis, no entanto, não se restringem a Geovanna, e Bárbara Saboya e Leandro Ramos exibem para o mundo a irresistível Luara:

 


Na viagem de volta para a casa, um ótimo episódio intermediário faz a festa dos nerds. Em “A Dama da Noite”, nosso protagonista sai numa aventura pela Bienal do Livro com Monique Bomfim e Ana Carolina Alcântara para tentar um contato com a escritora Anne Rice.

 

Eles se perdem no caminho de ida, ficam presos no trânsito, encontram o evento lotado, perdem as senhas para a sessão de autógrafos e só conseguem ver a dita cuja enquanto se espremem dentro de um pequeno stand.

 



 

Anne Rice é uma das musas do protagonista,

que  tenta realizar a façanha de conseguir

comprar todos os livros da série “Crônicas Vampirescas”.

A mulher é uma lenda e escreve sobre vampiros

com uma propriedade até suspeita. Ela é um gênio

da ficção e foi responsável pela criação de um dos

personagens mais geniais da literatura mundial: Lestat.

 

 

Logo depois da estreia de “O Lendário Bando de Maria Urtigão”, começam os preparativos para outras duas apresentações teatrais na faculdade. No episódio “Os Poetas”, o grupo, pressionado pelas expectativas, derrapa na apresentação de “Soneto de Fidelidade”, mas dá a volta por cima na apresentação mágica do “Mash up Fernando Pessoa”. Com música e festa, o grupo apresenta uma esquete dinâmica e envolvente, que acaba alavancando mais ainda a fama do mesmo.

 


 

As tensões de final de período são conhecidas no episódio “Os Processos Periódicos”, em que ele acaba descobrindo que toda paixão pelo inglês rendeu frutos de reconhecimento. Mesmo sem curso e dependendo da boa vontade dos amigos, um belo 10 estampa seu boletim. Ele dá muita importância pra isso, enquanto ignora que de fato, isso não é nada. O episódio termina com a antecipação da reunião derradeira, onde os amigos trocam seus presentes e se preparam para a nova jornada.

 


 

 

A sorte do protagonista muda no que diz respeito à seu trabalho como resenhista, quando uma grande estreia transforma-se num grande sucesso. É a hora de "American Horror Story" entrar em cena e tirá-lo da irrelevância. 

 


 

Enquanto a bem sucedida estreia da nova investida de Ryan Murphy levava-o ao patamar de admiração dos leitores, a nova investida de Spielberg o levava ao maior patamar de repulsa de outros. A série "Terra Nova" era tão vista quanto a outra, mas mais terrível que qualquer uma. No entanto, o bem vindo sucesso em ambas tornou o trabalho com as reviews ainda mais indispensável.

 

O teaser do episódio “Bravio” acabou ficando conhecido pelo seu caráter intenso e filosófico. O relacionamento amoroso do nosso personagem sofre baques constantes, onde a dúvida e o medo acabam tomando a frente das ações. Esse processo é interrompido por outra reviravolta. O casal gay mais famoso da TV, que passou por tantos percalços e superações, recebe de braços abertos a filha pródiga, que com dificuldades, pede abrigo e conforto, ao lado do amado, para o pai. “Bravio” termina com a certeza de que ainda há muito amor entre os dois, e que o senso de família acaba se ampliando independente das nossas vontades.

 

 

O Amor é mais importante que tudo.

 

Seguindo em frente, um grande personagem de temporadas anteriores se despede definitivamente do programa numa trilogia que arrebatou totalmente a audiência.

 

Esse longo Season Finale começa com a trágica perda de Mário de Oliveira. O diretor, que teve grande importância na vida do protagonista, se ausentou, por motivos de saúde, de temporadas recentes, mas manteve seu nome vivo através da voz de seus pupilos. Na primeira parte da trilogia, “Anátema”, os preparativos para o Auto de Natal se confundem com as dificuldades de execução do mesmo. A notícia da morte de Mário, sobretudo nessa época, pega todos de surpresa e desestabiliza tudo que já havia sido planejado.

 

 

Mário de Oliveira chegou à cidade

na década de 90 para ajudar na

realização dos primeiros Autos de

Natal. Com ele, outros nomes

importantes vieram e formaram

uma rede cultural que tornou-se

indispensável para a formação

artística local.

 

 

A segunda parte, “Evoé”, mostra os acontecimentos em torno do triste e controverso enterro do amado e odiado diretor. O episódio/homenagem, é recheado de histórias e lembranças. Muitos flashbacks fazem parte desse capítulo e acabamos revendo momentos emblemáticos dessa fase teatral da série. O episódio termina com nosso protagonista recebendo o convite para editar imagens de vários Autos de Natal que serão exibidos na montagem atual.

 

O Season Finale. “Dacapo”, tem um gostinho de expectativa. As dificuldades financeiras do canal podem resultar, no ano que vem, em mudanças drásticas no quadro logísticos da série. Com medo disso, os roteiristas providenciaram um final que pode funcionar inclusive como um final definitivo para alguns personagens e situações.

 

O episódio trouxe alguns nomes afastados do elenco, reuniu participações especiais notáveis e mencionou todos aqueles que não puderam comparecer. Em “Dacapo”, o Auto de Natal transforma-se numa grande homenagem à Mário de Oliveira e começa com muitos alunos antigos se reunindo para esse momento. Essa reunião provoca o crossover com as séries de Tiago Maviero, Bárbara Saboya, Mariana Duarte, Mariana Barcelos, entre outros.

 

Muito bem escrito e profundamente emocional, o episódio é um tributo à arte e ao artista e os vídeos com alguns dos momentos passados chamam a atenção pela sensibilidade e beleza.

 


 

As emoções do Auto de Natal se fundem com as emoções de final de ano. O Natal e o Reveillón são representados como o reinício de novas oportunidades. É fim de temporada e mais um ano de sucesso se encerra.

 

O episódio termina no último minuto de 2011, quando em meio a muita chuva, nosso protagonista vê as luzes dos fogos se projetando por entre as nuvens e pensa em Deus. Em tudo que precisa agradecer, em tudo que ainda precisa desejar, em todos os sonhos que ainda precisam de mais tempo para se realizar... Em toda saúde que ele mentaliza para os que ama. Em todo amor e em toda dor. Obrigado por tudo que foi... E que venha tudo de melhor que está por vir.

 

See you on the next season...

 

  

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 16:41
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Ungida de Placebo

Sarah Sheeva estava agora há pouco na Gabi dando uma entrevista. E é aquela coisa, não tem criatura mais Fake. Qualquer fala, qualquer gesto, foi milimetricamente pensado para fazer parte da oratória eloquente típica dos que lidam com as emoções do grande público. Em toda a entrevista, só vi uma Gabi exausta, farta de tantas respostas prontas, até desistir de arrancar qualquer declaração realmente pessoal da criatura. Sarah não se saiu bem nas perguntas sobre dinheiro e continuou com o péssimo hábito de não ouvir e não interagir, só falar.

 

Curioso sobre os tempos de SNZ e da época em que ela cantava a música "secular", fui ver no You Tube e olha quem era a figurinista das bocudas:

 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 03:14
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Sexta-feira, 1 de Julho de 2011

Dobrando: Adele, O Hobbit, Harry Potter, The Glee Project, SérieManíacos, Britney Spears, Friday Night Lights, Maria Urtigão e Vida que Segue...

Sei que não atualizo o blog faz um tempo, mas as razões pelas quais isso não foi possível seguem todas em sequência, junto com as frivolidades imprescindíveis à alma, nesse urgente e necessário post de esclarecimento e exposição.

 

Há um tempo atrás, fui procurado pelo pessoal de uma das companhias de teatro aqui de Rio das Ostras para criar uma adaptação de uma esquete que eles tinham e que queriam transformar num espetáculo.

 

 

Então me debrucei sobre Maria Urtigão e seu lendário bando de cangaceiras decadentes. Expandir um texto de 10 para 30 páginas não é nada fácil. Então fui atrás de referências históricas e inventei de compôr algumas canções de Cordel (literatura que aborda muito o cangaço como temática). Minhas noites são totalmente tomadas pelo universo louco e divertido de Maria Urtigão e suas colegas. E nessas noites de imersão dramatúrgicas são embaladas pela antítese musical, para o tema, chamada Adele.

 

 

Enquanto a moça sobe na minha playlist, desce no meu conceito. Prefere continuar fumando como louca do que parar e cuidar da voz. Esse ciclo insano de arte se misturando com sexo, vício e dormência volta a me aborrecer. Às vezes tiro os fones de ouvido e me pergunto porque ela a arte não pode ser limpa, tem sempre que estar coberta de cinzas, restos e fluídos. Então fico feliz porque minha arte é limpa. Sou capaz de fazê-la sem torpor... Lamento por Adele, mas continuo a ouví-la. Então desvio os olhos para a televisão e lá estão os garotos cantando-a...

 

 

The Glee Project está na minha pauta há tempos. Acompanhar as vidas dos jovens que buscam um lugar dentro da série mais influente da atualidade é divertido e desbravador. A gente entende a engrenagem da TV, entende os executivos, os criadores, entende os maus resultados vindos de boas intenções, entende a arte conseguindo ultrapassar o conceito de indústria... E isso me faz pensar no álbum novo da...

 

 

Britney. E que me soou tão tolo num primeiro momento, mas que depois de liberar um divertido clipe da faixa I Wanna Go, me fez perceber uma obviedade: depois de Lady Gaga tornando sua aparência e sua atitude algo uns dois graus acima de sua música, faz bem ver que Britney continua com singles agradáveis que garantem meu divertimento cênico de banheiro. Que venham as críticas, mas Britneyda ainda faz música melhor que Gaga.

 

E me lembro que Glee executa as canções de Gaga melhor do que ela, e volto a pensar em The Glee Project, que tem ótimos participantes e um insuportável Ryan Murphy se sentindo o Deus Gleênico que tudo sabe e que precisa ter seu trabalho feito pelos outros, ou seja, se o participante não "inspira" o criador, está fora. Fico pensando, no que Chord Overstreet (Sam) inspirou Murphy pra poder entrar na série. A boca grande? Só isso? A inspiração não é obrigação e sim fluidez. Não pode haver parâmetro dentro de um apresentação apenas. E então eu me lembro de Friday Night Lights.

 

 

Há um tempão atrás, quando comprei a primeira temporada da série, ela em nada de inspirou. Era engraçado, porque embora todos falassem tão bem dela e ela parecesse bem feita, algo não funcionava, não chegava até mim. E Deus... eu agradeço tanto, mais tanto pelo meu senso de curiosidade. Pela minha mente completamente aberta às possibilidades. Pela minha ausência de preconceito literário, cinematrográfico, musical... Pela minha maravilhosa capacidade de experimentar. MUITO OBRIGADO!! Após começar a segunda temporada, a mágica aconteceu. Estou prestes a terminar a quinta e última temporada e estou fascinado. Minhas noites tiveram que abrir espaço para Friday Night Lights (que diga-se de passagem foi o único drama teen a ser indicado para o prêmio da associação americana de críticos) e tem sido um tempo muito bem aproveitado. Uma pena que não possa escrever sobre ela no Série Maníacos...

 

 

Um ótimo site de séries que visito sempre para ler as resenhas de meus programas favoritos e que acaba de me oficializar como resenhista de três séries do canal SyFy: Alphas, Haven e Warehouse 13. Participei de um concurso para encontrar um novo resenhista para Gossip Girl e para minha alegria total, ganhei a simpatia do editor. Ele adorou meu estilo e me sugeriu algumas séries para escrever uma resenha-teste. Escolhi Haven e Warehouse 13 e passei. Ele também me sugeriu Alphas e eu vou arriscar. Assim que as novas temporadas começarem, eu estreio no site. Por isso, estou cheio de trabalho: preciso ficar em dia com os programas pra acompanhar direito quando começarem. Essa será uma oportunidade incrível pra mim, que adoro séries, adoro escrever sobre séries e adoro se lido. Tenho esperanças de com o tempo, ganhar a chance de escrever sobre séries que me cativam de verdade. Escrever sobre cinema, quem sabe? Adoraria escrever sobre o final da saga Harry Potter no cinema...

 

 

... que será o encerramento de uma história mágica que me deu imensas alegrias e que me orgulho muito de ter acompanhado. Comecei a ler o último livro novamente. Quero a história muito fresquinha na minha cabeça pra sentir a emoção do jeito certo. Do jeito que tem que ser. Esse será o fim de um épico belíssimo, saído de uma literatura incrível, que merece todo o respeito e toda devoção. Assim como com Arquivo X e Lost, Harry Potter me ajudou muito a mergulhar nos valores criativos de uma obra. Me inspirou imensamente. Estou devorando o livro amarradão como se fosse a primeira vez. Tenho que terminar logo, porque quero começar O Hobbit.

 

 

Agora que as primeiras fotos saíram e o filme é uma realidade, tenho que me apressar. Uma nova jornada me aguarda e eu vou mergulhar nela com todo prazer.

 

Ao passo em que esses novos caminhos vão surgindo, a vida vai dando pausas em alguns setores e privilegiando outros. O blog terá atualizações em menor escala, mas elas estarão aqui. Eu sempre tenho muita coisa a dizer, mesmo que não se tenha muita gente pra ouvir. Se você passa por aqui de vez em quando, não desiste não. Eu sou leal e prometo retorno. Vejam só, entrei pra dizer que não teríamos atualizações durante algum tempo e já escrevi sobre um monte de coisas. Acredite em mim quando eu digo que sou dependente das minhas palavras. Elas são tudo que eu sou.

 

As Dobras estará sempre aqui. Você só precisa esperar um pouquinho.

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 20:36
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

A Escuridão da Curiosidade

Na manhã de ontem, Ana Maria Braga recebeu no seu programa a última vítima do massacre de Realengo que ainda estava no hospital. A menina Tayane, ainda visivelmente afetada pelos eventos do dia do massacre, estava de cadeira de rodas e ainda tinha muita dificuldade de ser expressar contundentemente diante das perguntas de Ana Maria. No entanto, o pouco que ela falou sobre o assunto já provocou em mim aquela sensação de suspensão do bom-senso, gerando um desconforto ambíguo, cheio de indignação e pesar, mas também cheio de uma enegrecida curiosidade.

 

 

Eu não acordo cedo, todo mundo que me conhece sabe. Pego no trabalho só às 14 horas e foi meu namorado quem viu a entrevista e comentou comigo, enquanto eu tomava banho. Assim que o relato dele começou, aquela fagulha de morbidez, que tanto demorou a ser suprimida nos dias após o crime, começou a queimar novamente e a buscar alívio. O dia ia permanecer o mesmo pra mim, mas ao sair de casa eu já sabia que a primeira coisa que faria ao chegar no trabalho era procurar o vídeo da entrevista no You Tube. E dessa maneira, o prazer e a dor, cozidos numa mesma fogueira midiática, voltariam a consumir o meu tempo produtivo.

 

Começou com a entrevista no programa de Ana Maria, mas logo, automaticamente, eu já estava revendo os vídeos do dia do massacre, tentando vislumbrar novos ângulos, querendo e ao mesmo tempo repelindo a possibilidade de momentos cada vez mais reais sendo capturados pelas pessoas presentes no local. O que aliás, é outro souvenir da modernidade: a morte nunca foi tão célebre. Com cada vez mais pixels, está estampada em revistas, jornais e flutua soberana por câmeras de circuito interno e celular. E essa facilidade de acesso ao trágico, para pessoas como eu, que sentem intimamente o calor de um momento como esse, torna tudo ainda mais próximo. Faz com que seja palpável. Provoca uma sensação testemunhal que aumenta o "prazer" de assistir e o sabor do terror.

 

Logo os médicos criarão uma patologia pra isso, estou certo. Por enquanto eu prefiro ser suave e dar ao impulso o carimbo da super-sensibilidade. Misturada, claro, a uma mórbida e excruciante necessidade de ver, de estar, de participar. Não sei de onde ela vem, não me perguntem. E nem sei se tenho companhia nessa disfunção comportamental que nada de bom pode trazer ao meu espírito. Esse hábito de observação trágica é uma profunda incoerência diante da minha óbvia inclinação para a alienação. Eu percebo, mas não controlo. Tem vezes que eu prefiro acreditar que é meu dramaturgo tomando a frente e enxergando nos dramas alheios a possibilidade de literatura. O que você vive é experiência, e o que não vive é história escrita. E tenho um prazer tão imenso em contemplar palavras que pode se comparar ao de viver os fatos. E então eu fantasio minha presença naqueles outros mundos de experiências que não são minhas, e confundo a minha curiosidade com a minha dor.

 

Pela minha vontade, não existiria jamais o naufrágio do Titanic, o terror do 11 de Setembro, o incêndio no edifício Joelma ou o massacre na escola em Realengo. Eu sinto tanta compaixão por aquelas pessoas... E sinto tão intensamente o medo. O ódio pelas vidas perdidas de maneira tão estúpida, por motivos tão torpes. E ao mesmo tempo, a cada dia que começa comum em algum lugar do mundo, e que muda de rotação em apenas dois segundos, meus olhos páram num instante ínfimo da fita, quando crianças esperam a hora de entrar na sala de aula e minha mente às vezes azêda, estaciona no pensamento nocivo e repetitivo que fica martelando essas mesmas frases: Não havia nada nesse dia que anunciasse o fim. Não havia sombra, nem silêncio e nevoeiro. Não havia o medo suspenso de atravessar a floresta. Era Sol e suor entre as conversas de corredor. Como saberei quando esse dia comum chegar pra mim? E o que eles pensaram quando o homem atravessou a porta? Qual é o primeiro pensamento antes do fim? Qual o último pensamento antes da escuridão?

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 20:42
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

Era uma vez em 7 de Abril...

 

Já faz quase uma semana desde que o agora reconhecido como esquizofrênico, Wellington Menezes, entrou dentro de uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, e matou 12 crianças à queima roupa.

 

Como é de praxe dentro do cenário nacional, desde então não se fala de outra coisa nos telejornais. Nos tempos em que vivemos, as tragédias estão cada vez mais próximas de nós, através de imagens que circulam por toda a web, o que torna os eventos de 7 de Abril um pesadelo que nos toma da sensação de normalidade dos nossos dias. A cada minuto uma nova imagem, uma nova perspectiva ou ângulo, e uma perscrutação incansável da vida do infeliz do assassino. Em contrapartida, as mesmas perscrutações e imagens nos revelam um cenário de pânico, terror e absurdo. Ninguém está preparado nunca para acordar e dar de cara com crianças ensanguentadas jogadas em corredores e saindo aos gritos pelos portões de uma escola. E embora os diagnósticos de doença mental estejam pipocando por todos os canais, não há como desligar a mente da raiva e da frustração provocada por esse indivíduo.

 

Começaram as discussões sobre os efeitos do bullying, sobre a segurança nas escolas, sobre tudo que diz respeito a educação e sociabilidade. Ou seja, o Brasil parou para avaliar a tragédia e os efeitos dela e de quebra, o que Wellington conseguiu foi provocar um sentimento de medo generalizado, já que sabemos que do mesmo jeito que os ataques de 11 de Setembro "inspiraram" as loucuras do assassino, esse triste 7 de Abril pode influenciar outros extremistas ou esquizofrênicos ou seja lá qual for a mistura necessária para criar tamanha monstruosidade, a realizar o mesmo desatino. Sem os eventos de Columbine talvez não tivessem acontecido outros ataques semelhantes. E o que a gente faz diante desse ciclo incontrolável? Ficamos a mercê da piedade humana... Contando com a sorte de não estarmos no lugar errado, na hora errada.

 

E o vídeo que circula na web mostra que aquelas crianças, naquela manhã aparentemente normal do dia 7 de Abril, nunca poderiam imaginar que estivessem no lugar errado, na hora errada, o que torna tudo ainda mais insuportável. Em dois minutos, tudo desaba. Em dois minutos, tudo é finito. E somos lembrados que não controlamos nada, que somos frágeis como papel e estamos vulneráveis ao julgo e à condenação pelas mãos dos nossos próprios semelhantes.

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 15:31
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Sábado, 19 de Março de 2011

Fenda Asiática

Os terremotos no Japão já são a grande pauta dos jornais há mais de uma semana. O tremor de 8.9 sacudiu o país por volta das 15 horas durante dois minutos e embora a destruição tenha sido amenizada pela tecnologia anti-terremoto dos prédios e casas, a tsunami que veio em seguida devastou a população. Mais de 7 mil pessoas já foram declaradas mortas.

 

Não sei, mas meu HD interno quando faz umas pesquisas sobre a reincidência de tsunamis no mundo, não consegue captar tanta frequência como nos últimos anos. Sobretudo nos últimos meses, as catástrofes naturais nos assolam em proporções absurdas. Desde a menor escala, como na região serrana do Rio (o que pra nós é grande escala) até a maior escala, como esse evento no Japão, que pelas imagens que correm o mundo se assemelha ao cenário ficctício mais assustador de hollywood.

 

Você se imagine lá, as 15 horas da tarde, trabalhando, e de súbito começa a tremer tudo pra depois de algum tempo, ondas gigantes adentrarem a cidade sem aviso pra varrerem tudo que encontram pelo caminho. O vídeo postado abaixo é um exemplo dessa fragilidade humana diante da natureza: de longe, um homem filma a gigantesca onda se aproximando da praia. Dá pra ver os carros passando rápido pela rodovia na beira da orla. Sabemos que aquelas pessoas não vão conseguir se salvar. É assustador. Lembra os filmes mais insanos do Roland Emerich. Não vemos redemoinhos na vida real... não estamos no cinema vendo Piratas do Caribe... não estamos acostumados com isso. Preparados pra isso.

 

 

 

Parar pra pensar no quanto tudo pode desmoronar na sua vida no meio de uma tarde qualquer é algo que gela a espinha. Os efeitos dessa tragédia se estenderão sobre o Japão, já uma nação tão castigada, por muitos anos e enquanto isso, as discussões sobre a força dessa catástrofe podem ser vistas em qualquer canal de TV. Todos achando estranho que algo assim acontecesse com tanta potência... todos fazendo aquele silêncio assustado de quem teme algo maior espreitando no futuro. Talvez daqui a alguns dias... alguns meses... talvez na próxima primavera... ou no próximo ano.

 

Tem alguma coisa errada acontecendo no mundo... alguma coisa muito errada. 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 18:08
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Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

A Menina Única

Tinha uma moça brigando com a responsável pela troca de sapatos no boliche. As duas discutiam. A atendente atrás do balcão tinha uma mecha fina de cabelos presos no canto da boca. Eu ficava olhando pra eles...

 

Domingo à tarde quente e arrastado, como são todos os domingos à tarde depois que finda a nossa infância, quando ficamos felizes da vida porque chegou o final de semana longe da escola e da obrigação de acordar cedo, estudar e passar. Com céu claro ou com nuvens, com chuva ou com sol... Não importa. Os domingos à tarde para os adultos que não comem churrasco e nem tem carros pra lavar são sempre os mesmos. Arrastados. Viscosos. Feitos para desfrutar dormindo ou vendo bobagens na TV. Ou para sair em programas matinescos com suas amigas, se for adolescente como eu.

Resolvemos subir o teleférico para chegar ao boliche da cidade. Passeio lindo, fresco, cheio de sorrisos e das nossas idiotices juvenis. Naquele domingo... um dia normal em que tinha uma moça brigando com a responsável pela troca dos sapatos. Um dia que não sabia como me avisar que eu precisava aproveitar muito bem a companhia das amigas ao meu lado, já que dois dias depois eu ainda estaria viva, mas elas não.

 

 

 

 Eu olhei pro alto bem forte quando estávamos descendo da montanha pelo teleférico. Sentia a minha pele quente pelo entardecer lento. Estavam comigo três meninas agitadas que seguiam no mesmo passo que eu desde que começou a ser possível fazê-los. A Menina 1 tinha cabelo castanho longo, era filha de um político importante na cidade, morava numa casa  boa num bairro perto do meu e naquela hora que nos despedimos na Praça, entre suspiros e risinhos, eu ainda não sabia que era a última vez que eu a veria com vida.

A Menina 2 era mais calada, menos bonita e mais atraente. Falava pouco sobre si mesma com os outros, e ninguém sabia que eu era a única que conhecia seus segredos. Era filha de um jornalista viúvo que morava na capital e vivia aqui com os avós. A Menina 3 era a única que morava bem perto de mim, do lado da minha casa. Eu, a Menina 4, que em menos de 48 horas me tornaria então, a Menina única.

 

Segunda-feira foi um dia comum. Nas férias a gente sempre acaba mesmo achando que não precisa fazer nada. E foi isso que eu fiz, nada. Acordei tarde, pensei em ligar pras minhas amigas mas achei que seria bom passar um tempo com meus cachorrinhos. Dei banho, levei pra tosar e depois brinquei com eles no quarto. Ainda conversei com alguns amigos na internet, mais tarde, e embarquei desacordada pelo sono na última terça-feira inocente de toda a minha vida.

 

O dia já estava nublado pra mim quando acordei. A Menina 2 tinha combinado uma cachoeira com os primos, mas a previsão era de chuva e ela então não foi. A metereologia, no entanto, não era a vilã do meu dia e eu fui com minha mãe fazer compras na cidade. Por volta das 18 horas, o céu já estava começando a ficar bem escuro e resolvemos voltar pra casa. A Menina 3, que morava ao meu lado, ainda ficou lá em casa até perto das 22 horas. Eu até queria que ela ficasse por lá pra dormirmos tarde depois de ficar vendo bobagens na internet, mas a mãe dela estava zangada com as tarefas que ela negligenciou e não permitiu. Decidida a só deitar quando estivesse dominada pelo sono, permaneci desperta.

 

É engraçado... Mas a primeira lembrança que eu tenho de uma tempestade é de quando era muito criança e nós morávamos numa espécie de fazenda no interior do estado. Era uma área rural muito extensa, plana, com poucas residências e sem nenhuma montanha ou rio próximos. Ou seja, a chuva, por mais forte que fosse não assustava ninguém. Mas eu morria de medo! Os raios e os trovões ajudavam muito nessa sensação de impotência, mas era aquele maldito coqueiro ao lado da minha janela que me apavorava. Tínhamos um quintal grande, cheio de pés-de-coisas, e na janela ao lado do meu quarto tinha um coqueiro. Como vocês sabem os coqueiros crescem meio tortos, têm todos aquela forma curvilínea parecida com a das bananas e quando eu paro pra pensar nas tempestades a primeira imagem que me vem é aquele vento forte, os espelhos da casa sendo cobertos, os aparelhos eletrônicos sendo desligados, todos sentando-se juntos na grande sala e os relâmpagos permitindo que eu enxergasse a forma torta daquele coqueiro balançando assustadoramente na direção da minha janela. Tinha dias que aquilo me assustava tanto que eu me agarrava na cintura de minha mãe e ficava assim até os ventos cessarem. E na minha irracionalidade infantil, nem percebia que eu era a única grande assustada. Aquele coqueiro, mesmo que caísse, no máximo quebraria os vidros da moldura e possivelmente não conseguiria ferir ninguém... A chuva em minha memória era assim: bucólica, aromática, lúdica e levemente temerária. Falar assim faz parecer que foi há tanto tempo...

 

Já para a Menina 3, minha vizinha, que morava aqui desde que nasceu, a chuva tinha um grau a mais de ameaça. Nem de longe essa ameaça incluía fios de vida sendo cortados sem controle pelos Laquesis da mitologia, mas todos temiam ter que andar por ruas alagadas ou, na pior das hipóteses, perder bens de consumo numa enchente. Mesmo assim, Menina 3 adorava morar ali. Eu também, na verdade. Era tão fresco... E tinha uma paisagem verde pra todo lado. Não importava pra onde você olhasse, havia uma montanha verdejante sorrindo pra você. Era uma cidade, mas não tinha a banca de uma. Não ameaçava minha origem rural com arranha-céus e colunas de fumaça. Era uma cidade inquilina da natureza. Cheia de vizinhas igualmente encantadoras das quais uma delas, tinha como símbolo a forma de um dedo apontando para o céu. Como se disséssemos assim: Hei, você aí! Obrigado pela divindade natural que nos cerca... Minhas amigas e eu morávamos num lugar assim, assentado em concreto sobre a beleza de uma terra verde. E até as primeiras horas da madrugada de quarta, a vida ainda seria assim durante muito tempo.

 

Não sei como foi para as minhas três amigas e suas famílias. Mas na minha casa a essência da morte chegou como um gigante que anuncia suas dimensões com passos firmes num solo úmido. Ouvi um grande estrondo que parecia o de um tiro abafado. Depois o som virou uma espécie de sinfonia retorcida como a de um balde escorrendo água na pia. Dez segundos depois, outro estrondo. Uma pausa e mais sensação de escorrimento. Só que mais viscoso. Pensei: é o rio. O rio que ficava a alguns quarteirões da nossa rua. Mas e os estrondos? Tumm!! Mais um. E mais perto. Levantei correndo e minha mãe e meus irmãos já estavam de pé no corredor. A voz do meu pai veio do quarto, corremos até lá e ele observa alguma coisa pela janela. Pela brechinha que sobrava eu olhei pro lado de fora e vi, estupefata, uma corredeira de lama imensa descendo pela montanha numa velocidade impressionante. A cada obstáculo que a massa encontrava no caminho: Tumm!!. E à exceção de alguns pedaços de madeira voando, não dava pra ver mais nada. Só o brilho asqueroso da lama aliviando sua tensão mortal ao vencer mais uma barreira.

 

Corremos pro lado de fora. A água já nos cercava. Da casa da Menina 3, minha vizinha e amiga, eu não ouvia e nem via nenhuma movimentação. Dizia a minha mãe que tínhamos que ir até lá, porque talvez as pessoas não estivessem acordadas pra perceber o que estava acontecendo. Em pânico, eu começava a perceber que quase todo mundo ainda estava dormindo. Precisávamos acordar aquelas pessoas! Então comecei a gritar e foi aí que o pior pesadelo de qualquer um se tornou realidade: eu seria mais uma. Mais uma naquelas estatísticas assustadoras de pessoas que passam por grandes tragédias. Ano passado, eu e Menina 1 tínhamos conversado sobre o que aconteceu em Angra dos Reis e nos apavorava a idéia de a morte chegar tão sorrateiramente e levar sua vida ignorando que no dia seguinte você precisa fazer aquela viagem que esperou tanto e que custou tão caro. Naquela madrugada, era a própria vida de Menina 1 que estava sendo expurgada enquanto ela dormia. E esse pensamento assustador de pessoas morrendo sufocadas por água e lama me tomou como um calafrio febril e eu comecei a realmente me desesperar. Meu pai enfiou bóias em meu irmão mais novo e aos berros pedia que nos segurássemos uns aos outros e tentássemos atravessar o alagamento até a esquina, onde poderíamos pedir abrigo no prédio de apartamentos que ainda não tinha sido atingido. Nos seguramos forte e começamos a atravessar. Eu ainda insistia que fôssemos à casa da minha amiga, mas meus pais, de maneira sinistra, negavam e se entreolhavam. Tentavam distrair nossa atenção para outras direções para que não víssemos as pessoas sendo arrastadas pela água e pela lama.

 

Tivemos sorte. Com água pela cintura, atravessamos o alagamento. Mas a correnteza realmente mortal estava do outro lado. Nos fundos de nossa casa, por onde, alguns metros atrás, passava o rio. Entramos no prédio de apartamentos e ficamos todos no teto. Alguns outros vizinhos conseguiram chegar até lá. Alternávamos entre o pânico e o silêncio. Ouvíamos gritos do lado de fora. Estrondos vindos de todo lado. Eu via os olhos apavorados dos que percebiam corpos boiando nas correntezas. E o dia amanheceu assim. Meninas 1, 2 e 3 estavam mortas antes do sol raiar. Duas delas só seriam encontradas dois dias depois. E eu lá, naquele telhado, olhando a água continuar a subir e o pânico de que o prédio caísse tomando conta de todos. Até que um helicóptero chegou no início da tarde e começou a nos resgatar. Do alto, a imagem era ainda pior. Barragens deslizam e continuavam a invadir as ruas sem o menor aviso. Algumas atravessam as casas de maneira impressionante. Havia carros por cima de varandas e paredes boiando como se fossem jangadas. Eu não queria olhar... Tinha medo de que algum daqueles pontos nas águas fossem corpos ou pior, pessoas vivas pedindo socorro. Mas olhava mesmo assim... É que... Meu Deus... Parecia tão absurdo. Há algumas horas atrás estava todo mundo vendo a novela. Jantando, conversando, fazendo planos pro dia seguinte. E a morte entrou pelas paredes arrastando tudo, tornando aquilo absolutamente sem sentido. As pessoas não deviam ter que estar mortas dessa maneira. E então eu chorei nessa hora. E foi um choro brutal. Eu mal podia respirar. Eu não era mais um ser humano comum. Eu teria a amargura de uma tragédia tatuada no meu consciente. Será que podem voltar a ser felizes os que testemunham o genocídio?

 

- Olha o que você fez conosco! – Dizia agora o dedo apontando para o céu em minha cidade vizinha.

 

Escrevo agora de um ginásio onde permanecem todos os que sobreviveram. O sentimento é de culpa pela vida preservada em detrimento das que se foram. Não sabemos o que será de nós quando a chuva passar e pudermos sair. No meio dos repórteres que tentam noticiar o evento, me pergunto por que nenhum deles faz reportagens sobre como deter o medo de voltar a fincar raízes no mesmo lugar? Ao olhar em volta, eu vejo tristeza, lágrimas, fome e vergonha. Pode parecer absurdo ter vergonha diante da tragédia, mas não é fácil pedir quando você esteve acostumado a dar. Meu pai está na fila para pegar alimentos. Seu semblante é devastador. Nada me corta mais o coração do que a imagem de um homem esperando comida para dar aos filhos. Nós, que já doamos alimentos e roupas para desabrigados, agora dependemos desse mesmo gesto. Tenho vontade de chorar novamente. É só o que tenho feito. Chorado e tentado afastar minha cabeça das imagens de horror que me assombram mesmo acordada. Alguém me disse aqui que falar sobre a tragédia pode ser bom, mas eu não quero falar com ninguém. Eu queria falar com vocês, minhas Meninas, mas vocês não estão mais aqui. Eu as amo. Tomara que tenha sido enquanto vocês dormiam. Tomara que essas palavras meio tortas escritas nesse caderninho amassado possam ser sentidas nessa esfera etérea onde vocês agora residem. Lembrem-se de olhar em volta Meninas, agora sabemos que onde morar é parte importante de viver. Certifiquem-se que nada pode deslizar das paredes do além para lhes sufocar, exceto o eterno amor de Deus. Enquanto escrevo essa declaração final, sou tomada pela percepção de algo que conforta a minha culpa por ainda estar viva:

 

O sofrimento existe, para que possa haver solidariedade.

 

                       

Num Outro Domingo, Ainda Entre as Montanhas, 16 de Janeiro de 2011

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 20:20
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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Fugindo para as bordas

 

Essa foi uma das imagens que coroaram a nossa televisão na última semana. A onda de ataques dos traficantes em arrastões pelos congestionamentos da cidade gerou uma resposta incisiva da polícia, que tomou duas das favelas mais perigosas do estado. A imagem acima é a da fuga dos traficantes, pela mata, que buscavam refúgio no Morro do Alemão.

 

Uma a uma, os canais de televisão aberta do país passaram os dias inteiros cobrindo a ação da polícia. O Rio de Janeiro, tomado constantemente pela ação dos traficantes, parece estar passando, finalmente, por alguma espécie de transformação. A dúvida incutida aqui deve-se a sensação de estranheza causada pela possibilidade real de que estejamos mesmo a caminho de uma erradicação ao menos notável da criminalidade. O pensamento por sí só já é bizarro. Após assistir o Tropa de Elite 2, a sensação é de que qualquer ação vai levar a uma reação em cadeia que sempre vai nos levar na direção de algum buraco.

 

No domingo, o clima nos programas jornalísticos era de redenção. Parecia que tínhamos acabado de ganhar uma copa do mundo. Agora, no meio de toda essa euforia de ver traficantes sendo expulsos de seu reino, a gente fica se perguntando... Pra onde eles vão? E pra onde vão todos os que estão em outros morros que serão iminentemente tomados? Sem tráfico, aumentam os roubos. E com mais roubos, mais homicídios... Não sei... Sinceramente, acho que toda essa alegria pode estar ofuscando um perigo maior que nos ronda. O do caos. Não há nada mais perigoso que bandido desesperado. Nada.

 

 

 

Update: Alguns dias depois de escrever esse post, a polícia aqui de Rio das Ostras fez uma operação para capturar um bandido do morro da Vila Cruzeiro que tinha vindo buscar refúgio em minha cidade. Fomos trancados aqui dentro do Teatro Popular e ouvimos tiros. A sensação é de desproteção e pânico total. Temo muito pelo que nos aguarda.

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 21:45
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