Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Vale Sempre

Ontem, depois de uma festejada reprise, a novela Vale Tudo terminou novamente para espectadores cientes de quem matou Odete Roitman, mas nem por isso menos contentes em rever esse que é o maior dos mistérios da nossa teledramaturgia.

 

Cheia de momentos inesquecíveis, a novela era tão inteligente que chegava a dar medo. As soluções dramatúrgicas cheias de sagacidade, os personagens com uma base psicológica bem definida, os diálogos brilhantes. Ao contrário do que está acontecendo com Vamp, onde sua reprise mostra que seu sucesso foi superestimado, a volta de Vale Tudo veio para confirmar sua genialidade.

 

E quer saber qual é pra mim o personagem mais bem construído da história? Errou quem apostou em Odete Roitman ou Maria de Fátima. As duas são maravilhosas, claro. Fátima, principalmente é incrível! Cheia de níveis e subníveis de motivação, um desbunde. Mas pra mim, o Ivan, vivido por Antônio Fagundes (lindo de morrer), é o personagem mais crível da novela. Sem a maldade brutalizada de Odete, mas igualmente ambicioso; e sem a honestidade cega de Raquel, mas igualmente generoso. A trajetória dele é a trajetória de muitos brasileiros que vivem na corda bamba entre a facilidade do delito financeiro que gera frutos e as consequências morais que isso traz para o caráter. Ivan passou o início todo da história em pé de briga com Raquel, que não aceitava os valores flexíveis do namorado, para então no final da novela, ser o único a encontrar a cadeia por conta de um desses delitos leves que facilitam a vida mas que formam a estrutura podre do país em grande escala.

 

 

Enfim, Vale Tudo veio num momento ótimo para Gilberto Braga, que depois de alguns acertos com Celebridade e Paraíso Tropical, finalmente reencontra a própria voz em Insensato Coração. A atual novela das oito vem dando um banho de boas construções narrativas, vem sabendo ser paciente para criar expectativas, vem arrasando com a maneira com que tem mostrado as questões homossexuais e está cheia de bons personagens. É curioso também que Glória Pires, que em Vale Tudo viveu seu maior papel, esteja agora, depois de muitos anos de maus personagens, reencontrando o sucesso com outra novela de Gilberto.

 

Para aqueles que quiserem rever o grande momento da morte de Odete, segue abaixo o vídeo com o momento. Mas não deixe de ver o momento seguinte, em que o Brasil de Cazuza, cantado por Gal, toca ao fundo enquanto todos os pobres da história vão sendo presos e o rico Marco Aurélio entra em seu jatinho e manda bananas pro belo e feio Rio de Janeiro.

 

 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 18:53
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Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

Ainda Vale Tudo

 

 

 20 anos se passaram desde que Gilberto Braga resolveu falar sobre união civil entre pessoas do mesmo sexo na novela Vale Tudo e se a história se repetisse hoje, Laís e Cecília não teriam um destino muito diferente, não.

 

Encantado com a reexibição da novela que graças a Deus eu estou conseguindo acompanhar pelo canal VIVA, vou seguindo imerso nesse maravilhoso mundo da realidade carioca do final dos anos 80. E que deleite! A novela, mesmo com a falta de apuro técnico da época, ainda dá um tapa nas traminhas de meia tigela que a gente vê hoje em dia. Já lá, em 1988, Gilberto Braga já abria mão da hiper importância a respeito de conflitos como presidente-das-empresas-da-família e amo-meu-irmão-sem-saber, que alguns autores insistem em manter até hoje. Passione é um bom exemplo disso.

 

A um dia do final, a novela demonstra o monstro da recorrência que pegou em Sílvio de Abreu e não soltou nunca mais. Suas três últimas tramas, pelo menos, deram a suas vilãs o mesmíssimo destino final: presas, humilhadas, algumas cenas sem maquiagem na prisão, um plano de fuga ridículo, um pequeno terrorismo no penúltimo capítulo e uma morte metida a besta enfim. Sem falar no samba-do-crioulo-doido que a história dançou desde o início. Era pra falar de paixão, voltou a falar de crimes policiais (Silvio de Abreu nunca mais se recuperou do complexo megalomaníaco que veio junto com o sucesso de A próxima vítima). Alguns personagens sofreram brutalmente de sua covardia criativa (Marcelo Antony e Mariana Ximenes, principalmente) e vimos um show de tramas recicladas pioradas por vilões caricatos em emoções bombeadas de apatia. E sotaque italiano pela enésima vez, não dá! Um vexame total. E Sílvio só aumenta o cordão de decepções onde já fazem volume o equivocado Antonio Calmon, o pretensioso Aguinaldo Silva e o sem-noção Manoel Carlos. Se não fosse por João Emanoel Carneiro e sua surpreendente A Favorita, o horário das oito já poderia ser considerado o fundo poço absoluto. Até porque, lá já está o Benedito Rui Barbosa só esperando companhia.

  

Gilberto Braga escreveu Paraíso Tropical alguns anos atrás e ela não pode ser considerada um fiasco total. Graças ao bom trabalho dele no desenvolvimento de Bebel, vivida por Camila Pitanga, a novela escapou do fracasso. Bebel conseguiu tirar o vilão de Wagner Moura do caricaturismo e trouxe consigo alguns ótimos momentos da nossa televisão. Mas, a estréia de Insensato Coração pode, se ele não tomar muito cuidado, fazer com que seu destino seja a rodinha do naufrágio pra onde estão indo todos os seus colegas.

 

Enquanto isso não acontece, eu sigo me deliciando com Vale Tudo discutindo o direito de uma mulher a ficar com os bens que adquiriu enquanto esteve casada com sua parceira falecida. Isso visto agora, já é legal. Sabendo que essa era uma discussão dos primórdios dos anos 80 é melhor ainda. Evoluímos muito no sentido de poder discutir relações gays abertamente, temos telefones melhores e as pessoas não fumam loucamente em qualquer lugar, mas no cerne da discussão e reação social, Vale Tudo é de uma adequação ao presente que beira a genialidade. As pessoas hoje ainda são tão preconceituosas quanto eram antes. Beatriz Seggal e sua Odete amedrontada com a idéia de que a “amiga” de luto pela parceira dormisse em sua casa, é incrível. As pessoas sendo condescendentes em admitir a relação marital das duas, idem. A pobre Laís, sem o reforço da parceira de classe alta, voltando a ser um “objeto” inconveniente no meio da sala, com o qual as pessoas não sabem como lidar... enfim, impressionante.

 

Eu não gosto de ser saudosista, mas no que diz respeito às novelas reprisadas no Viva, não tem como não ser. É maravilhoso poder assistir Carlos Lombardi quando a valorização de uma boa idéia ainda era importante pra ele, poder assistir Manoel Carlos quando ele ainda queria retratar a realidade sarcasticamente manipulada da sociedade de classe média, e não fazer poesia visual com uma bossa nova tocando no fundo, e poder assistir Gilberto Braga trazendo à tona o que de pior reside nos que passeiam embaçados pela Av. Atlântica e o que de “melhor” reside em quem os observa.

 

 

Em tempo:

Amo Babalú!

Venero Abgail

Saúdo Branca Letícia de Barros Mota

Maria de Fátima é poderosa!

E Odete Hoitman é de matar de rir.

 

  

Update: Antes de publicar esse post Passione terminou e o que vimos foi um desfile decadente de obviedades que em nada redimem Silvio de Abreu de tanto equívoco. Tirando as bobagens de sempre como casamentos, partos e reuniões de família, o saldo final foi negativado e piorado pela vergonha de fazer com que o personagem de Bruno Gagliasso fosse “dividido” pelas duas mulheres que ele enganou durante a trama inteira. Embora ele estivesse mesmo lindo, nada justifica tamanho descaso com a objetividade feminina e tamanha homenagem ao machismo que nos rodeia. Duas mulheres lindas, inteligentes e jovens não precisam dividir homem nenhum. É uma tristeza ver uma idéia tão capenga ganhando ares de normalidade em rede nacional. E já tinha autor de novela fazendo isso lá nos anos 70. E se não bastasse essa pá de lama no que eu entendo como individualidade, ainda tenho que aturar uma última tentativa de fazer a Mariana Ximenes funcionar como uma vilã revolucionária. Já virou um tique do Silvio de Abreu fazer a vilã se dar bem no final pra que assim ele possa pensar que está sendo original e transgressor. E idiotamente, perpetua um senso de impunidade que faz qualquer idiota (e esse país está cheio deles) achar que com um bom planinho te salva das mãos da justiça. E põe “inho” nesse planinho! A tal da Clara deve ser boa mesmo em proporcionalidade, porque adivinhar que o carro ia cair na ribanceira, sem a moça ser lançada pra fora dele, que ele ia explodir, carbonizar o corpo e que mesmo assim não haveria suspeitas... Olha, que esperta – inclua sua inflexão irônica aqui – Nada melhor do que ver uma novela chamada Passione, terminar com um close na vilã triunfante, que matou, roubou, enganou, mentiu, torturou e mesmo assim foi premiada com o ato final e muito tempo pra continuar achando que vale a pena insistir no erro. Não me entendam mal, eu não sou contra homenagear o vilão de uma história, mas sou contra a justificativa explícita de um ato de violência, mesmo que esse ato seja contra um homem que tem desvios sabidos de caráter. A sensação ao ver o flashback que revelava o assassino do Werner – insira um sobrenome impronunciável aqui – era de que o autor queria amenizar o ato hediondo da Clara baseado num questionável senso de vingança da personagem por ter sido “abusada” dele na infância. E tanto segredo pra no final das contas, revelar um assassino óbvio numa cena pretensiosa que parecia ser mais uma bombeada do autor tentando sair de cena chocando e transgredindo.

E Reynaldo Gianechinni, coitado... Devia ter ficado em casa negando sua homossexualidade para os sites de fofoca, e não ter ido pro Projac gravar essa perda de tempo. Bola fora em seu currículo, de novo.

 

 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 20:06
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