Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

A próxima Pseudo-vítima

Parece que não é só o fascínio pela ação do destino na vida dos outros, mas também o destino em sí, que fica em repouso no consciente coletivo, a espera apenas de uma nova oportunidade de ser casual.

Bastaram alguns meses para que o caso de Isabela Nardoni caísse no esquecimento comum da mídia.

Sai Isabela, entram Eloá Pimentel e sua amiga Nayara, que por causa da sede de "lugar ao Sol" do jovem Lindemberg Alves, foram parar nos noticiários policiais como as mais novas vítimas de uma sociedade notoriamente tensa, agressiva, distorcida e desconceitualizada.

 

É só sobre o que se fala nos jornais. Na TV, qualquer um pode ver, de graça, todo o espetáculo da desastrada ação da polícia, que após ficar cinco dias adotando a tática do "vamos cansá-lo", sob o pretexto de ter ouvido um tiro que ninguém mais ouviu, invade o apartamento por estar ela mesma já cansada há muito tempo. O rapaz, até então um fantoche de sua própria necessidade de atenção, precipita uma resposta à altura e atira nas meninas, quase matando uma e ceifando sem chances a vida da outra. Era a mesma sucessão de equívocos que culminou na morte da professora Geísa, pelas mãos de Sandro Nascimento, dentro do ônibus 174, num episódio inacreditável de incompentência policial que resultou na aterrorizante cena da morte de Geísa ao vivo, em cadeia nacional.

 

Até essa fatídica sexta-feira, a impressão que todo mundo tinha era de que aquele era um grande capricho de um adolescente machista, mal-criado e egocêntrico. A constante valorização da mídia em nossas vidas tinha feito outro soldado. O rapaz queria ser visto. Queria que todos soubessem de sua dor.

Lindemberg fez questão de provar à polícia que "não estava pra brincadeira". Fez a linha "bandido de filme americano" o quanto pôde. Sem o menor senso de proteção, apareceu na janela várias vezes, deu tiros desengonçados para o nada, fez o número "estou apaixonado e ninguém me entende", filosofou com o negociador e não perdeu a chance de maximizar a própria importância, usando frases do tipo "avisa pra população que isso está perto de acabar". O que todos nós não contávamos, era que a polícia também estava meio "desajustada" àquela situação. E essa foi a sorte dele. E o azar delas.

Eloá apareceu algumas vezes na janela. Não chorava, não parecia desesperada, pedia calma e uma vez até sorriu. Parecia entender que apesar de estar nas mãos de algúem que sabia que não tinha nada a perder, aquele também era o namorado com quem esteve durante mais de dois anos. Ela não podia ser tão tola. Não podia acreditar que ele lhe faria mal tão desnecessariamente.

Nayara saiu do cativeiro na terça. Inexplicavelmente, a polícia a deixa ir sozinha até a porta do apartamento para negociar com o rapaz. Ciente do drama que a amiga Eloá está passando e culpada por tê-la deixado sozinha, Nayara entra no apartamento novamente e se torna refém pela segunda vez.

 

Apenas a partir de quinta-feira, foi ficando claro que mais do que numa tentativa de impressionar, Lindemberg era alguém que temia a morte e a cadeia. E que sabia da iminência de uma dessas duas coisas. Sua resistência em ser algemado e levado do apartamento chegava a ser infantil. Cercado de policiais e armas, ele não exitava em bradar "não encosta a mão em mim". E lutava para se libertar.

Segundos antes, havia atirado nas meninas em resposta a invasão. Nayara levou um tiro no rosto e talvez por isso a bala tenha parado por causa dos ossos da boca. Eloá levou um tiro acima da testa e a bala atravessou todo seu cérebro. Lindemberg atirou pra matar. As duas levaram tiros na cabeça. Ele havia feito a escolha de levá-las junto dele ao inferno em que tinha se metido. A mesma escolha que Sandro Nascimento fez quando percebeu que a polícia iria atacar e que provocou a morte de Geísa.

Se Sandro estava descendo do ônibus e iria se entregar, porquê atirar nele? Pra ser considerado um herói? E se Lindemberg estava sob muito cansaço durante todos aqueles dias, porque não esperar mais? Ou porque não aproveitar uma outra oportunidade em que ele se descuidasse? Porque inventar um tiro pra justificar uma invasão? E o pior, uma tosca invasão, provocada por um grupo de elite da polícia que não conseguiu nem perceber que talvez houvesse um móvel bloqueando a porta.

 

Escuto um monte de gente a minha volta reclamando da super exposição do caso na TV. É perturbador perceber que a mesma violência que amedronta e causa pânico nas pessoas, também é um dos maiores objetos de fascínio da sociedade. Quando se trata de terceiros, a violência, a morte, o sofrimento e o martírio são sempre sentidos, mas nem por isso imunes ao exercício mórbido da observação. Ninguém desliga a TV. E fotos de Geísa morta, de Eloá sendo socorrida, pipocam na internet.

Um filme sobre a tragédia de Eloá não será difícil de ser visto nos cinemas em breve. Os cineastas brasileiros parecem ter estudado todos na mesma escola da "crítica à exclusão social". Transformando todos os criminosos em homens incapazes da capacidade de escolha e decisão. Enfiando todos num mesmo saco de psicologia barata, a qual eles entendem ser a responsável pela dificuldade de discernimento  de um sofredor, que opta pelo crime e encontra na própria mídia o consolo e a justificativa para todos os seus atos.

A mesma mídia que ofereceu à Sandro as desculpas que ele precisava:

 

 

"minha mãe foi esfaqueada, meu pai levou bala e minha irmã foi degolada... eu não tenho nada a perder"

 

Que ofereceu à Lindemberg as razões que ele pretendia usar:

"tudo que eu tenho não é nada, então eu não preciso temer o que vou perder"

 

O discurso do "não tenho nada a perder" é sempre acompanhado do monstro da desigualdade social, que sufoca e limita as oportunidades dos menos favorecidos, condenando-os a uma vida de ameaça constante e forçando-os a ceder ao desespero como válvula de escape. Até aí tudo bem... Mas e como fica a Dona Maria que perdeu os filhos, o marido, venceu um derrame cerebral, dependeu da ajuda de estranhos e mesmo assim, depois de tudo isso, levantou a cabeça e começou a vender salgadinhos pra sobreviver? E como fica o seu João? Que tinha um negócio próspero, mas teve que gastar tudo no tratamento da doença de um filho que ele acabou perdendo. E sem condições pra criar os que restaram, acabou caindo na miséria, de onde só saiu tempos depois, com a ajuda de projetos sociais.

Todos os dias, a TV e o cinema transformam personagens como Sandro e Lindemberg em anti-heróis da sociedade. Justificando suas ações hediondas com um pano de fundo social que não é infalível. Que não é tão sólido. Que não é tão chapado. E quando a mídia faz isso, ela presenteia esses personagens com mais material pseudo-lúdico, e incute na cabeça do povo a obrigação de agredir as classes altas, de entender tragédias como essas e de amenizar monstros como esses.

Como isso vai parar? Não vai parar. Porque a mesma mídia que através de um cineasta qualquer, vai transformar Lindemberg num ícone de incompreensão, também é a mídia loucamente superficial que é absorvida sem ponderações por alguns e provoca o pedido absurdo da refém Nayara Silva pra que o jogador Alexandre Patto fosse visitá-la no hospital.

Quem, numa hora dessas, decide tirar um proveitozinho de uma fama instantânea para conhecer um ídolo?

Ah, bobagem.... Essa pergunta não faz nenhum sentido. Afinal de contas, esse é um blog, eu estou escrevendo nele tudo que eu penso, na esperança de que alguém leia, reconheça minha genialidade e me jogue com tudo no núcleo dessa mídia fria, oportunista, deliciosa e desvastadora.

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 00:03
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