Domingo, 18 de Janeiro de 2009

A Coragem Faz a Diferença

Terminou.

Enquanto Glória Perez prepara seu retorno ao horário nobre com o já passado e batido gancho do "amor impossível", João Emanoel Carneiro se despede do mesmo com uma história de amor muito inusitada. A história de amor entre Flora e Donatela. Nada de mocinhos e mocinhas passando perrengues para ficar juntos. Aqui, a complexa e profusa relação de amor é entre duas mulheres que passaram toda a vida tendo seus destinos confrontados com sentimentos de afeto, inveja, ambição e sucesso.

E sabiamente, João Emanoel percebeu a força dessa história e terminou o último capítulo com uma das cenas mais bonitas da televisão atualmente. Donatela, deitada com seu amado, relembra o primeiro dia em que ela e Flora cantaram juntas. A suavidade com que ela descreve a beleza e aparente inocência de Flora é tocante. Essa ambiguidade inclusive, esteve presente durante todos esses últimos capítulos, com as motivações e psicologias de Flora sendo expostas de maneira sábia e discreta.

Eu adorei. "A Favorita" se despede como uma novela quase sem tropeços. Uma história coerente e segura.

Patricia Pillar teve finalmente a chance de fazer uma vilã. Sua escalação foi correta e corajosa. O autor da novela ironizou muito com essa coisa dela ser loirinha, ter olhinhos azuis e carinha de anjo. Quando o público não sabia qual das duas era a assassina, muita gente achava inconcebível que Patrícia fosse a vilã. A própria Flora usava a seu favor esse esteriótipo angelical para se colocar como vítima.

Patrícia pensou o personagem de maneira muito segura. Ela usou todo seu carisma para nos fazer amá-la. Torcer por ela. Ela sabia dar o olhar certo, a inflexão certa, ela sabia tudo que devia fazer para tornar a sinceridade de Flora crível. Ao mesmo tempo em que a face má de sua personagem era pontuada por um humor frio e uma cadência vocal que lembrava em muito a outra Patrícia, a Selonk.

Flora foi um grande achado. Por suas tiradas engraçadas. Por sua psicopatia assassina. Por sua ambiguidade emocional. Uma das melhores vilãs da nossa dramaturgia.

Cláudia Raia mostrou a que veio logo no início. Sua Donatela era espaçosa, simplória, escandalosa, dada a impulsos agressivos e muito perua. Não demorou nem dois capítulos pra todo mundo considerá-la a assassina. Claúdia já sabia quem era Donatela mesmo antes do grande segredo ser revelado. Se o primeiro capítulo e o último forem assistidos um atrás do outro, tanto Donatela quanto Flora podem ser vislumbradas e percebidas em toda a sua complexidade. Mas cabia a Claúdia a heroína inversa. Mesmo com o destino marcado para muitos sofrimentos e derrotas, a personagem nunca perdeu aquele aspecto dúbio que Claúdia construiu para provocar dúvidas. Donatela era tão carinhosa quanto insuportávelmente exagerada. Parte de uma tentativa de não chapar as coisas com o bom e velho maniqueísmo de sempre. Havia nela um vestígio claro de péssimos fatores imprescindíveis para tornar verossímel seu papel naquele contexto.

Tudo foi muito bem orquestrado. Ao invés daqueles mistérios batidos de "Quem matou?" envergarem-se por todo o elenco da novela quando ela está chegando ao fim, João Emanoel Carneiro iniciou a sua segregando esse mistério a duas personagens. Uma delas matou. Qual? Qual a sua favorita? No primeiro ato, ninguém sabe. No segundo, nós sabemos e os personagens não. No terceiro, todos sabem. Uma divisão que enriqueceu muito a novela, considerada sempre uma sub-cultura e que provou aqui, que pode sim ser revigorada e reinventada. Basta ter oportunidade pra isso.

 

Ele cometeu alguns poucos erros, menos graves como o esquecimento de personagens como a Arlete de Angêla Vieira e mais sérios como a propagação de conceitos nocivos como a "ex-homossexulidade" de Orlandinho. Mas erros perdidos no meio de tantos acertos. Acertos que incluem a escalação de Cauã Reymond num personagem que é o sonho de todo ator. Aquele que circula por todos os núcleos da história. Halley era quase onipresente. A Lara de Mariana Ximenes também fugiu de ciladas chorosas e terminou em grande estilo, dando um tiro em Flora (com direito a uma das melhores frases de Flora nesse último capítulo "menina frouxa").  Atores maduros como Glória Menezes, Mauro Mendonça, Ary Fontoura, não foram só uma ramificação inútil da história, ele "foram" a história. Murilo Benício não deixou a desejar como Dodi. Lilia Cabral roubou a cena, mas duelou forte com Jackson Antunes, disposto a impressionar com seu Léo. Quem também impressionou foram Gisele Fróes, por sua segurança e carisma, José Mayer, por sua coragem, Miguel Rômulo pelo Shiva mais emocional que qualquer um naquela história, Iran Malfitano que não teve culpa dos rumos de Orlandinho, e defendeu-o muito bem. Além de Deborah Secco, que assumiu os riscos de Céu e a tornou coerente.

 

Foi uma grande história. Diferente de tudo que foi feito em certo pontos e igual a todas as outras nos lugares certos.

Pra mim, junto com "História de Amor", a melhor telenovela da nossa televisão.

E agora, que venha a Índia de Glória Perez. E que não seja uma reciclagem impensada dos conflitos culturais de "O Clone".

 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 16:36
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