Sexta-feira, 9 de Setembro de 2005

Divã Psicodélico

* escrevi esse texto pro jornal da escola. É de um personagem que eu inventei pra falar sobre a vida no teatro e no meio gay.

Fiquei aqui um tempão diante dessa tela pensando em como começar esse artigo de um jeito que não provocasse o incômodo daqueles pra quem eu quero falar. E é pros gays que eu quero falar.
Essa reflexão parece estúpida! Eu também sou gay! Mas esses dias eu percebi que se tem um povo que fecha os ouvidos pro exercício da discussão, esse povo é o povo da pseudo-aceitação. Quem já é gay pra sí mesmo e pros outros não tá nem aí pra nada. Já sabe quem é e o que precisa ser, não precisa se desculpar e nem convencer ninguém. Mas aquele que circula sorrateiramente entre os becos escuros ou viaja longas distâncias em busca do anonimato, esse sim sabe que muita coisa está em aberto e que sua cabeça quase sempre desvia do assunto.
Outro dia numa boate eu ouvi um carinha contando pro outro que era gay porque tinha sido molestado por um tio quando criança. Ele falava com aquela voz trêmula, tentava agir naturalmente e ainda deu uma virada de cabeça bem teatral depois que aquele silêncio constrangedor pairou no ar. Eu quase ri. Os outros logo mudaram de assunto e eu (numa noite nada produtiva), me pus a pensar naquela confissão do rapaz. Pra ele, ele era gay porque tinha sido "corrompido" pelas mãos sujas do tio tarado. Pra ele, a partir do momento em que sua "inocência" foi imaculada pelas vias sórdidas do sexo, o mundo "normal" fechou as portas pra ele e sua única saída foi se entregar àquela prática "ensinada" pelo tio e depois aperfeiçoada pelos anos seguintes de sua existência atormentada.
Comecei a falar sobre o assunto com outros gays que estavam lá na hora (e que também tinham encalhado) e pra minha absoluta surpresa, descobri que muitos lá concordavam com o sujeito do tio tarado. Fiquei pasmo! Teve até um bichinha com um arco na cabeça que disse: "eu fui criado pela minha vó, ela adorava me vestir de menina porque sempre quis ter uma neta". E quase chorou dizendo isso!! Eu comecei a me sentir muito estranho... Uma realidade alternativa se abriu diante de mim e eu de súbito estava cercado de um monte de caras que tinham milhões de razões pra explicar sua condição gay, todas horrendas e pavorosas, e que tinham os olhos fechados pra única e verdadeira razão pela qual isso acontece: a natureza!
Caracas!!! É aqui nesse ponto que o rapaz atormentado rasga o artigo! Natureza?? É aqui nesse ponto que eles acham que eu sou um viadinho engajado que adora o Luiz Mott e que não perde uma parada gay! Por favor rapazes, leiam até o fim!!!
Pois bem, tudo devia se resumir numa máxima: não há causa exatamente por não haver distúrbio! A ciência já tá careca de saber que não sabe de onde se origina a homossexualidade, e essa já é a maior prova de que ela se origina do mesmo lugar comum de onde surge a heterossexualidade: lugar nenhum! O cidadão hetero sabe que é hetero do mesmo jeito que sabe que seu cabelo é liso e o cidadão gay, sabe que é gay do mesmo jeito que sabe que seus olhos são castanhos.E ponto final!!
Ah, e esse aqui é ponto em que o rapaz que não rasgou o artigo lá no páragrafo anterior, se pergunta: "quem ele pensa que é? qual a formação desse metido?". Eu sou formado na escola da vida (argh!!). Tá, tá bom... Pelo amor de Deus minha gente, se todos fizermos um exame de consciência vamos perceber que éramos diferentes desde os primórdios de nossa infância! Eu nunca brinquei de boneca, mas sabia desde cedo que tinha algo de "errado"comigo. Não adianta dizer que a culpa era do primo safado ou do tio tarado porquê a tensão sexual só chegou a existir porque o rapaz já era gay muito antes disso. É claro que há casos de moléstia. Mas se o cara não for gay, ele não vai "virar" por causa disso! Isso não pode ser uma regra ou se aplicaria a todos os casos, e não é o que acontece. Muitos tios tarados molestam seus sobrinhos e os caras jamais passam a transar com homens por conta disso. Dá um revertério mental, mas não sexual! Até sexual, mas não homossexual! Se o cara for gay, o tio tarado vai ser a descoberta e não a causa! Eu mesmo, com dez aninhos olhava cheio de sensações pros meus primos e fazia preces pra ser "molestado" por eles. Óbvio que a cultura religiosa pressiona os fatos e eu tinha milhões de culpas quando transava com eles. Milhões! Pra mim o fogo do inferno era meu destino! Mas eu queria. Eu os queria tanto quanto eles me queriam! Morria de vergonha disso. Achava que dois homens só eram capazes desse tipo de contato e que esse negócio de ser "bicha" era um retardo sexual que me deformava. Mas com a graça de Deus (Deus, sim!), a maturidade e a busca por respostas me mostraram que o tio tarado era página virada. Ele tinha sim "feito mal" à minha infância e inocência, mas foi só um estágio da minha descoberta. Um mal estágio. Mas só um estágio. Mais tarde eu descobri que há sentimento entre os homens. Claro. É tão óbvio que parece imbecil. Somos seres naturais. E eu me apaixonei e percebi que eu me angustiava com a dor e a perda do amor tanto quanto qualquer amigo meu hetero.
Eu sei que temos uma inclinação natural pra querer saber o porquê das coisas! Principalmente daquilo que não entendemos. Se todo mundo fica dizendo pra gente que ser gay é errado, claro que começamos a nos perguntar porque isso aconteceu com a gente. E as explicações vêm de onde dá pra elas virem. De acordo com a história e cabeça de cada um. Se somos essa "coisa tão ruim", isso tem que ser culpa de alguém! Só pode ser culpa de alguém! É aí que entram o tio tarado, os primos sacanas, a mãe dominadora, ser o filho único, ter uma vó presente, ausência paterna... e por aí vai.... Nenhum desses "traumatizados", pára pra pensar que nada vai mudar a sua identidade gay! Ela existe. Está aí desde sempre! Não foi criada por nada nem ninguém! Você pode tê-la ignorado por muito tempo, escondido-a de sí mesmo, pode ter aberto mão dela e passado a vida inteira transando com mulheres, mas ela está aí! É uma característica imutável! E não tem que ser explicada porque é natural. Como a heterossexualidade.
Por fim, preferi não entrar nessa discussão com meus amigos da boate. Eles pareciam estar muito certos de suas convicções. E se eu tentasse, pareceria uma militante enlouquecida (aliás, se você que tá lendo disser isso, eu coço o saco, cuspo no chão e depois arroto na sua cara). Eu não tenho o direito de me meter nas teorias de ninguém, mas acho sinceramente que se nós mesmos não começarmos a enxergar que somos pensantes, amorosos e sentimentais como qualquer ser heterossexual, vai ficar difícil de encontrar serenidade na opinião dos outros.
Eu achava que todo gay sabia que era gay desde sempre. Eu achava que todos compartilhavam da minha certeza de que isso não precisa de explicação. É, e pronto! É pretensão demais achar que a natureza se enquadraria tão perfeitamente nas nossas regras: mulher com homem e nada de ramificações. Não existe um único ser vivo que tenha só uma espécie de comportamento. O problema é que pensamos. Questionamos. E isso torna tudo mais complicado. Mas não existe o que complicar. Somos o que nascemos pra ser. E podemos encontrar milhões de funções pra estarmos aqui. Mais simples do que possa parecer: viemos pra medir a capacidade de aceitar as diferenças. Viemos pra freiar a superpopulação... Mas viemos. Estamos aqui. Pra quê lutar contra isso?
Não quero convencer ninguém de nada. É melhor deixar isso bem claro! Isso aqui é só um artigo sobre uma coisa que me chamou a atenção. Por bem, acho melhor terminar. Talvez todas esses questões fiquem mais claras na cabeça dos meus amigos atormentados quando eles amarem. O amor por outro homem vai provar que somos divinos como qualquer ser. E esse amor existe. É só nos deixarmos sentir.
E pra não terminar assim, parecendo um texto final de um filme açucarado, eu devo contar que lá pelas quatro da manhã eu consegui pegar um estrangeiro lá no banheiro da boate. O cara me catou, me levou pra pista e... a boate fechou! Nem peguei o telefone. O cara mora na Argentina... Outras noites virão.
Té mais...
Dobrado Por Henrique Haddefinir às 16:12
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