Domingo, 7 de Agosto de 2005

E.C.T

Ostras’s Creek, 06 de Agosto de 2005

Oi Carmem!

Quanto tempo hein?? Tá cada vez mais difícil a gente sintonizar as nossas vidas de novo. As relevâncias vão se perdendo no meio do caminho e quando a gente vê, o tempo já apagou a importância de quase tudo e as coisas vão se sustentando porque é assim que tem que ser, em nome do manter dos laços.
Eu sinto tanta falta de você! Eu sinto tanta falta de nós dois! E ao mesmo tempo eu tenho tanta consciência de que essas distâncias acabam mesmo separando pessoas que não estão suficientemente juntas pra insistir no mesmo caminho. E eu sinto tanta raiva disso!
Decidi então que não vou ceder. As minhas cartas pra você vão continuar chegando independente de qualquer coisa. Independente do tempo que demorem. Do conteúdo que obtenham. Da iminência da resposta. Eu me recuso a aceitar essa desintegração! E essa vai ser sempre a minha cantilena nos seus ouvidos! Por mais que o tempo passe. E por mais que nós não passemos a falar nos mesmos assuntos.
Eu ainda não consegui lidar bem com o estresse da vida moderna. Que chegou até um pouco tarde pra mim, eu acho. Eu estou completando um ano de trabalho e desde que isso tudo começou, eu comecei a experimentar o gosto da vida adulta. Vida Adulta.... Acho que o meu cérebro ainda não entendeu muito bem esse processo. Acho que ainda penso como um adolescente. Acho que ainda resisto às responsabilidades da vida e acho principalmente, que meus idealismos ainda não se poluíram daquilo que os adultos sempre gostam muito de dizer: “seus sonhos se perderão na realidade do que a vida tem pra te oferecer”. Eu ainda não acordei Carmem... Acho que é isso. Eu ainda não acordei. Ainda olho pra mim no espelho e vejo um corpo adolescente. Ainda não me acho homem! Olho pra minha barba... pros poucos pêlos que cresceram no meu peito e pra estagnação dos meus não trabalhados músculos. E penso que meus olhos ainda têm quinze anos. Olho pro meu pênis, penso no quanto ele tem uma experiência que pode até ser considerada extensa e mesmo assim, ainda respiro com pulmões de quinze anos. Já tenho dívidas de um adulto. Salário ridículo de um adulto. Desentendimentos profissionais de um adulto e mesmo assim... A fantasia da vida ainda me fisga! Ainda penso que isso é bom. Mas às vezes tenho medo de ficar pelo caminho. Amadurecer sem perder a ternura. Mas amadurecer.
E você como está? E o filhão? E o maridão? Tá aí duas experiências pelas quais eu gostaria mesmo de passar!
Por aqui as coisas comigo mudaram e voltaram ao ponto de voltar a mudar. Eu conheci pessoas. Outras ficaram pelo caminho. Algumas eu não vou esquecer jamais. Mas no fim das contas, eu ainda sou um terminal de experiências itinerantes! As pessoas passam por aqui. Me ensinam o que tem que ensinar. Aprendem o que tem pra aprender. Mas vão embora. Sempre vão embora! Nem sei até que ponto eu estou vendo isso do modo como deveria ver. Talvez eu esteja entendendo errado um sistema que é visto normalmente pelas outras pessoas, mas o fato é que não tenho uma boa sensação. Me agarro à vontade de que as coisas fiquem pra sempre. Não sei aceitar bem que tudo finda.
Tive alguns problemas familiares. Minha mãe teve um derrame e mexeu não só com as estruturas físicas da nossa casa, mas também com as emocionais. De repente, diante do perigo de perdê-la (e como acontece com todo mundo que é humano), eu revi o passado e o presente e percebi que nossa relação estava muito ferida. Minha homossexualidade tem muita culpa nisso. Não só por ela nunca ter sido capaz de aceitar, mas também por eu jamais ter entendido que seu amor não era menor por isso. Bateu uma culpa pelas mentiras contadas. Bateu uma culpa pelas faltas graves e dissimulações. Uma certa vergonha também. Tem sido mais fácil pra mim ser gay entre eles. Cessou a luta pela minha transformação e eles adquiriram um certo conformismo mesmo. E isso é bom. Antes isso que aquela guerra diária.
Mas ela melhorou e graças a Deus teremos mais tempo pra nós! Estou tentando ser um bom filho. Ela tem se orgulhado mais do teatro na minha vida. A Escola entrou no seu último período e as apresentações das peças apontaram pra uma certeza dela de que estou feliz com o que faço. O trabalho fixo também ajudou muito. Acho que aos poucos tudo vai se resolver bem.
Às vezes tenho medo do futuro. E pode parecer ridículo que eu esteja dizendo isso. Quase todo mundo tem medo do futuro! Quase todo mundo não gosta de olhar por aquele cilindro escuro que representa o que ainda não aconteceu. Mas eu tento não pensar nisso. Quase sempre eu acho que minha existência é especial. E que por tratar-se ela de um bom roteiro cinematográfico, certamente me resguarda capítulos de sofrimento e dor. O lado bom dessa loucura, é que isso quase sempre também significa um episódio de redenção.
E por falar em episódio, eu finalmente consegui ver o final de Dawson’s Creek. Uma amiga aqui da escola de teatro adquiriu tv por assinatura. E a Sony está reprisando todas as temporadas! Quase implorei pra pobrezinha gravar a temporada final pra mim! E de quebra, ela ainda tentou gravar alguns de temporadas anteriores. Mas... como eu detenho a maldição da temporada incompleta, o vídeo da moça quebrou e perdi alguns que eu sempre quis ver e não vi. Os boxes com as temporadas em dvd são um sonho. Mas nem dvd eu tenho ainda! Ah... e por sinal, o final da série é lindo!
Continuo também um grande alienado musical! Cê já ouviu o novo cd do Blur? De chorar!
Enfim, tudo tem sido muito libertador. A vida tem sido boa comigo. Tenho passado por muitas novas experiências e tenho a sensação que estou vivendo mesmo! Mesmo pro ruim! Ainda tenho muita vontade de ir mais além. Eu queria muito dar mais passos. Gostaria muito de fazer cursos, fazer a universidade, viajar, ver e aprender coisas... Ainda tentando ignorar as limitações. Acreditando que vai dar pra fazer tudo. De um jeito ou de outro.
Entrei de vez no universo da Internet e mesmo ainda sem ter computador, já estou a par de todo esse maquinário cibernético que a juventude hoje ostenta como um crachá. Tenho o tal do orkut e já providenciei o meu MSN. Fiz um blog também. Que aliás eu quero que você veja. Será uma maneira também de saber sobre o que anda acontecendo comigo. Estou sempre postando lá. Vou até colocar essa carta, acho.
Bem... Eu acho que vou terminar por aqui. Vou esperar sua resposta seja pra quando ela vier. Espero que tudo por aí esteja bem. Espero que possamos nos manter juntos em intenção, ao menos. Você é uma pessoa que representa muito na minha vida Carmem. Alguém que sempre está nos meus argumentos, nas minhas divagações, na minha maneira de pensar o mundo. Eu queria poder ser melhor com você. Ao menos te ouvir muito, eu posso.
Grandes beijos pra todos! Saudades....
Henrique.

“You know,you know where you are with, you know where you are with, floor collapsing, falling, bouncing back and one day,I'm gonna grow wing
you know where you are”Let Down Radiohead

PS: O endereço do blog:
www.mybends.blogspot.com
Dobrado Por Henrique Haddefinir às 15:37
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1 comentário:
De Anonymous a 12 de Agosto de 2005 às 05:31
Eu sei qual é... eu tb vou passar por inúmeras mudanças. O fato de que, em menos de duas semanas vou estar fora de casa, não vou ver meus pais todos os dias, mas sim companheiras de república... por um lado, me sinto embriagada pela promessa de "semi-liberdade" que vem junto com isso... por outro, a solidão me assusta terrivelmente. Mas, todo mundo consegue sobreviver a isso, eu não vou ser diferente, não dessa vez... Tipo, depois vc me dá p seu endereço, pois eu tb tenho mania de mandar cartas pra algumas pessoas (no momento, soh uma), e gostaria que seu nome engordasse a minha pequena lista (lista com soh um nome? Dá um tempo...) de amiguinhos pra eu me corresponder. Se vc quiser, claro. Tem gente que acha isso muito pessoal, e não aceita que qualquer um fique mandando cartas assim, acha invasão de privaxidade. Bem, deixa quieto. Tipo, na quarta eu tô em RO, a gente se fala melhor, ok? Beijão.
Diana.

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