Sábado, 18 de Agosto de 2007

Porto Alegre Para Iniciantes - Meus dias de Cineasta

Porto Alegre - Dia 01
 
A viagem foi tenebrosa!!!
Apesar de ter do meu lado um Éder calmo e apenas preocupado em ver todas as lojas que pudessem ter a marca Colcci dentro do aeroporto, eu estava uma pilha.
Saímos da Fundação com o Francisco dirigindo loucamente como é de costume. Passamos primeiro na biblioteca municipal do Rio de Janeiro e carregamos algumas caixas de livros doados à Fundação.
Chegamos ao aeroporto com três horas de antecedência.
O Francisco deixou a gente no terminal dois, mas tivemos que ir até o um. Foi ótimo! Me senti num filme descendo com o carrinho de bagagens por aquele túnel cheio de gente com cara de gente rica. Rica e preguiçosa, porque demoravam um tempão pra atravessar o túnel usando aquelas esteiras rolantes como alternativa.
Fomos os primeiros a fazer o check-in e depois ficamos passeando pelo aeroporto. Entramos em algumas lojas e comemos um sanduba no Rei do Mate.
Não vimos nenhuma celebridade! Achamos que o cara que estava na fila do chek-in era o Felipe Cobra do BBB7, mas não pudemos ter certeza porque ele não olhou pra nós.
Liguei pro Gustavo e ele chorou no telefone. Fiquei arrasado! Eu sabia que o Éder seria uma boa companhia, mas no fim das contas, ele não estava interessado em fazer turismo ou participar do Festival. Ele queria ver homens, boates e roupas. Só falava nisso. E o meu Rei adoraria conhecer a cultura dessa cidade.
Deixei o Éder esperando no saguão e fui à capela.
Me agarrei com o terço que o Gustavo me deu pra trazer e agradeci a Deus por aquela viagem e pedi que ele cuidasse do meu amor e me desse a oportunidade de viajar com ele um dia.
O vôo atrasou mais de uma hora. Entramos no avião e a partir daí o tormento foi instaurado! Subida nauseante, pressão nos ouvidos, aeromoças apáticas e um companheiro de viagem nada compreensivo.
Me segurei. É bem verdade que teve uma hora que eu achei que ia ter uma crise de pânico. O céu parece uma estrada cheia de buracos e o avião balançava muito. Eu evitava olhar pra janela porque a cada vez que o fazia, era como se meu coração fosse saltar pela boca.
Me acalmei depois de algum tempo e pude apreciar a vista que é mesmo impressionante!! Aquele mar de nuvens... Lindo!
Chegamos por volta das seis e meia e o pessoal da produção do Festival estava esperando com plaquinha e tudo. Foram muito receptivos e menos de cinco minutos depois de tê-los conhecido, a primeira coisa que o Éder fez foi perguntar sobre boates GLS. Quase morri de vergonha!!
Levaram a gente pro hotel e voltaram pra nos buscar pra sessão de curtas da noite.
O Hotel é ótimo. Tem TV a cabo e água quente na torneira!
A Usina onde acontece o Festival também é um show a parte e as pessoas desse festival então, nem se fala!! Um show de figurinos exóticos e cabelos inacreditáveis!! E como fumam e bebem!
Vimos seis curtas. Cinco medianos e um ótimo, na minha opinião. O tema ainda é recorrente: muita abstração e exploração do extremo.
O debate só coloca lupa nesses conceitos e figuras ainda mais excêntricas que seus próprios filmes, anulam o valor artístico de suas obras.
Apesar de estar ali muito orgulhoso de mim, com aquela credencial no peito e com todos me olhando curiosos, eu tinha certeza que não iria me enturmar. O Éder assistiu os filmes de maneira surpreendente. Sem dormir! E até arriscou umas opiniões. E parecia muito mais disposto a conversar e sociabilizar. Mas eu não creio que eu vá conseguir. Aquele universo universitário e ególatra me parece ainda mais devastadoramente segregativo que o do teatro contemporâneo festivalesco.
Depois fomos pro Bar do Beto jantar. Um lugar ótimo e lindo! E comi um gostoso sanduíche de coração de galinha. Aliás, as lanchonetes aqui são "lancherias" e os sandubas tem todos um forrmato redondo engraçado.
Por fim, terminamos essa primeira noite em estado de graça.
E eu dormi muito bem.
 
Porto Alegre - Dia 2
 
Acordar pro café foi um sacrifício!
Me obriguei a comer bastante já que o dia seria longo. E enquanto o Éder continuava sua exaustiva pesquisa sobre os points gays da cidade, eu me arrumei e fomos nós dois dar uma volta pela cidade.
Estamos hospedados no centro. De um lado temos o complexo comercial da cidade e alguns centros históricos. Do outro, temos a Cidade Baixa, onde ficam os lugares da noite e também a Zona Sul, onde mora o pessoal rico. Mas é tudo muito perto. Circundando a região, o porto.
Eu e o Éder demos umas olhadas em algumas lojas. Quer dizer, eu dei uma olhada porque o Éder entrava e ficava horas com o vendedor mesmo tendo certeza que não iria comprar nada.
Encontramos um shoopping e tiramos algumas fotografias na praça do Mário Quintana (que coincidentemente é um poeta que está muito presente nos meus dias, ultimamente).
Vi muitas lojas bacanas, mas preferi deixar as compras pro dia seguinte. Com a ajuda do mapa que o pessoal do festival me deu, eu consegui organizar a cidade na minha cabeça.
Subimos uma ladeira e chegamos a uma linda praça. Enorme. Com esculturas lindas! Ela tinha um prédio ligado ao sistema judiciário, do outro lado um Teatro Antigo muito lindo que estava exibindo 'Medéia" e no fundo, a esplêndida Catedral da Cidade. Entramos e ficamos embasbacados!!
Voltamos pro hotel e o Éder decidiu dormir um pouco enquanto eu ia assistir à exibição do meu filme na Mostra Sala de Aula.
A exibição seria na FABICO, a faculdade de economia da cidade e ficava na Zona Sul. Peguei meu mapinha e comecei a longa caminhada.
Passei pela gigantesca Santa Casa, pela praça Argentina e atravessei o melancólico Parque Redenção. Lindo demais! Domingo tem uma feira lá que promete!!
Tentei prester atenção em tudo. Percebi que os gaúchos são muito educados no trânsito, mas não são muito calorosos.
Até agora, aliás, o frio não me pareceu tão insuportável, embora gélido! E é incrível perceber que por causa dessa obrigação de andar muito vestido, os porto alegrenses desenvolveram um senso estético muito bacana. Todos são muito elegantes. Misturando a cultura regional com a moda moderna. Até as prostitutas que ficam à noite no centro, são obrigadas a se vestir muito e bem. O que até deve dar a elas uma auto-estima subversiva, já que os clientes só vêem seus rostos.
Cheguei na FABICO depois de andar muito e por lá, o clima universitário é grande. São vários campus espalhados e predomina o tipo físico europeu. É um show de olhos azuis e cabelos aloirados!!
A sessão foi muito bem. Apesar de não muito cheia, o público se envolveu. Riu e pareceu gostar do filme. Eu dei uma palavra rápida sobre ele, mas não pude ficar até os outros curtas serem exibidos. Precisava estar no hotel às cinco.
De volta ao hotel, descobri que o Éder tinha saído, comprado um cinto novo e sido paquerado por um vendedor da C&A. Nos arrumamos e a vã nos pegou pra levar-nos à mostra principal!
Eu tremia dos pés à cabeça!
O show de figuras estranhas continuava! E a sessão, lotada, me fazia temer ainda mais o bendito debate.
O primeiro filme era um meio-documentário sobre invasões do MST. Já fiquei apreensivo. Competir com essas alegorias político-esquerdistas é brabo!! O segundo filme era um troço sem sentido que nos fazia rir pelo absurdo.
Aí veio o meu filme. E no meio da exibição, a cópia do filme travou!!
Eu ecorreguei na cadeira e achei que ia morrer!! Caramba!! Logo comigo!! A platéia parecia que tinha gostado e justo no clímax, aquilo acontece!!
Pra mim estava tudo perdido. O que poderia ser uma experiência bacana, agora com todos tendo que ver o filme novamente, se tornaria chato.
Passaram ao filme seguinte e eu entrei num universo particular de raiva e pavor!
Depois que o último filme foi exibido (uma filme ótimo sobre um cara que faz filmes lá na Paraíba), eles voltaram a exibir o meu filme. Agora, sem problemas.
No entanto, o silêncio reinava na platéia e eu estava pálido de expectativa.
Terminada a sessão, fomos chamados pro debate. Respirei fundo e mandei ver. Falei sobre como o filme tinha sido feito e pra minha completa felicidade, começaram a surgir perguntas de todo lado!! Perguntaram sobre o texto e elogiaram muito. Todos pensavam que o texto era de um autor famoso onde eu tinha me inspirado e eu pude ter o orgulho de dizer que era meu! Perguntaram da escolha das músicas. Perguntaram sobre a minha formação e eu falei que entre tantos estudantes de cinema e cineastas experientes, eu estava me sentindo até estranho.
Enfim, fiquei muito feliz. Meu sobrenome, que até então era o principal astro, ficou esquecido e nem precisei explicar a procedência dele.
Ao final do debate, ainda recebi cumprimentos de várias pessoas que elogiavam muito meu filme. E mesmo sabendo que ganhar alguma coisa vai ser muito complicado, eu já estou me sentindo muito bem comigo mesmo. Tenho certeza de que criei uma obra de arte que atingiu aquelas pessoas. Que venceu aquela barreira pretensiosa e foi compreendido.
Tivemos outra sessão de filmes (dessa vez com filmes bem "trash") e depois fomos pro restaurante. O Éder fez amizade com o DJ (lógico) e passou o resto da noite rastreando possibilidades de festa.
Comemos  e pegamos um táxi pro hotel.
Liguei pro Gustavo, chorei um pouco de saudade mas estou muito bem.
Eu troquei de roupa e deitei. O Éder se arrumou e saiu. Fiquei preocupado em deixá-lo sair sozinho, mas precisava dormir pra acordar cedo. E eu não queria festa. Pedi a ele que tomasse muito cuidado e entreguei na mão de Deus.
Fechei os olhos essa noite pensando numa frase de uma das responsáveis pela seleção de filmes do Festival: "Você precisa fazer mais filmes, rapaz".
 
Porto Alegre - Dia 3
 
Acordei às cinco e meia com o Éder batendo na porta do quarto. Estava acabando de chegar da boate onde tinha ido. Pegou um táxi ontem a noite e saiu sem rumo certo. Não quis ir a festa organizada pelo festival e encontrou uma boate chamada "Indiscretos". Chegou todo feliz. Ficou com um cara e fez amizade com uma drag queen.
Hoje eu comecei a ficar mesmo preocupado com ele. Gastou muito do pouco dinheiro que tinha com o táxi e a boate e passou o dia com o café da manhã. Eu tive pena, mas resisti à tentação de ajudá-lo. Ele fez suas escolhas e não posso arcar com as consequências delas. Ele está investindo todo o tempo e dinheiro que tem em desvendar os points GLS da cidade e nada posso fazer quanto a isso.
Acordei por volta das dez e meia e saí. Ele ficou dormindo.
Comecei meu tour pelo centro comercial da cidade. Comecei a tentar comprar algumas coisinhas pequenas pra levar pra algumas pessoas, mas a lista que eu tinha em mente era longa e vou ter que começar a fazer concessões. Trouxe pouca grana e não vou conseguir levar coisas pra todo mundo. Terei que fazer escolhas e negligenciar algumas pessoas e isso sinceramente, me deixa muito chateado. Chateado mesmo.
Caminhei lentamente pelas ruas. Hoje o céu saiu e aquela mistura de frio e sol me fez sentir muito bem.
Os gáuchos continuam um pouco frios. Panfletam loucamente todo tipo de coisa e vendem cadaços amarrados aos montes com uma finalidade que eu ainda desconheço.
Conheci algum prédios históricos e entrei no lindo Centro Cultural Santander, que é de cair o queixo. Meu filme estava sendo exibido lá também e de quebra, pude ver uma exposição linda de uma artista local. O lugar é lindo! A exposição era linda. Ficava o tempo todo pensando no quanto o Gustavo iria adorar estar aqui...
Consegui comprar uns cachecóis e alguns miúdos de enfeite. Vou tentar levar o máximo de coisas pro máximo de pessoas que eu puder. Mas estou começando a ficar preocupado. Fiz uma ligação pro Gustavo do quarto do hotel em regime de urgência e descobri que ela já me custara valiosos 17 reais. Terei que organizar melhor meus gastos de amanhã e depois.
Voltei pro hotel, tomei banho e parti com o Éder pra sessão na Usina. O Éder novamente focava todas as suas atenções pra roupas, homens e points e preocupado que isso começasse a me irritar, procurei deixar que ele e eu fizéssemos nossas próprias programações. Entrei pra ver a sessão e nessa primeira ele foi junto. Foram filmes bons. Um deles me emocionou bastante falando sobre a vida em Duque de Caxias, onde há muitas lembranças do meu passado. Além desse, os outros continuaram na mesma temática "silêncio, extremos e vísceras".
A sessão seguinte foi muito engraçada. Sendo a última do festival, foi responsável por boas gargalhadas. Filmes ótimos. Cheios de humor e erotismo.
Depois da sessão fomos pro restaurante. O Éder já estava verde de fome, mas mesmo assim, parecia disposto a continuar investindo todo o dinheiro que tinha na noite. Comeu bastante e garantiu as energias da madrugada.
Já estou conversando discretamente com algumas pessoas, mas ainda me sinto muito deslocado. Tanto profissionalmente como pessoalmente. São muitos cabelos excêntricos, roupas sobrepostas e discursos eloquentes cheios de citações e teorias. Prefiro sempre ficar quieto e observar.
Tive que pagar sozinho o táxi de volta pro hotel e continuo a me preocupar com a situação do Éder. Teremos consideráveis despesas ainda e ele não parece preocupado. Provavelmente já me considera uma péssima companhia pra viajar. Me recuso a ir pra noite com ele e fico o dia todo ouvindo críticas.
Mas estou bem... sentindo que estou aproveitando cada momento e levando uma lembrança viva da cidade.
Estou indo dormir e meu amigo já saiu novamente.
Amanhã teremos a premiação e o Cláudio Assis vai estreiar o "Baixio das Bestas". Vai ser um dia emocionante... Sem dúvida.
 
Porto Alegre - Dia 04
 
A rotina do Éder chegando de manhã cedo continuou. Eu mais uma vez me levantei e abri a porta pra ele já com o dia raiando.
Às 10, eu fui pro hall do hotel esperar pelo pessoal do Festival, que marcou um passeio coletivo num ônibus turístico que faz uma tour pela cidade. Dos dez combinados, apenas três, contando comigo, apareceram. Mesmo assim, partimos.
Tinha um cara de boné vermelho que eu não sei o nome, e o Juliano, que sei o nome porque veio me cumprimentar pelo meu filme e é aquele tipo de espectador apaixonado que faz várias viagens filosóficas quando vê alguma manifestação artística.
O passeio foi incrível!
O ônibus circula pelos centros históricos, periferias e zona sul e a cada dia que passa eu vou tendo mais certeza de que trata-se de uma linda cidade.
O engraçado é que não temos praias, mas mesmo assim o apelo turístico é grande, usando principalmente a cultura como principal atrativo. Muitos museus e casas de cultura e parques, muitos parques! A cada quarteirão, um parque! Porto Alegre, além de ter a corrida de táxi mais barata que já vi, também é a cidade mais arborizada do Brasil.
O guia era ótimo! Contou coisas sobre a história da cidade e ironizou com a quantidade de coisas por aqui que se chamam "Garibaldi".
O passeio na parte de cima do ônibus foi gélido! O vento era cortante, mas eu fiquei muito emocionado.
Voltei pro hotel satisfeito com o passeio mas tentando desencanar de me entrosar com os caras do festival. Eles continuam num mundo muito particular e eu me sinto mal tentando penetrar nele.
O Éder estava vendo televisão. Eu continuo preocupado com o lance de ele economizar dinheiro da comida pra sair à noite, mas sei que nada posso fazer pra amenizar isso. A convivência com ele é difícil sobretudo porque ele adquiriu uma preguiça incrível de pensar ou memorizar qualquer coisa (que não seja o endereço da boate).
À tarde fui conhecer alguns museus e fiquei encantado com uma exposição do "Goya". Tive momentos muito interessantes lá. Continuei minhas comprinhas e voltei pro hotel feliz da vida com a oportunidade de ver tudo que eu estava vendo.
Fomos pra Usina de táxi (estou economizando tudo que posso e tem dado pra bancar esse luxo e os presentinhos que tento comprar pra algumas pessoas... coisas baratinhas, mas que estou tendo grande prazer em comprar) e quase não conseguimos lugar pra assistir ao "Baixio". O Cláudio Assis estava lá. Fez um discurso enorme e eloquente sobre as coisas que queria discutir no filme, mas o resultado foi muito inferior ao esperado.
O filme é gratuito e como disse uma das diretoras presentes, parece o resultado de uma punheta mal batida e frustada. Nus mal explorados, sem contexto, cenas de sexo inúteis, um Matheus Nachtergaele fazendo a mesma coisa de sempre e uma sensação geral de desconforto.
E olha que a idéia é boa: um velho moralista começa o filme discursando sobre a falta de vergonha do mundo e logo depois, exibindo o corpo da neta pros caminhoneiros de parada em troca de dinheiro, vemos o quanto ele mesmo engrossa essa hipocrisia.
Saí da sessão e descobri feliz que muitos também não tinham gostado.
O nervosismo com a premiação começou e fiquei o tempo todo tentando me livrar dele. Era óbvio que eu não ganharia nada. Cercado de experientes cineastas e vários estudantes de cinema, eu era um mascote de muita sorte.
A premiação ocorreu sem delongas. Foi rápida. E preocupado com o julgamento que faria dela, eu me resignei a não comentá-la com nenhum dos presentes. Passei toda a semana ouvindo sobre o radicalismo do festival e com sua busca por linguagens inusitadas e descobrir que talvez estivesse diante de algum tipo de "vanguarda". O júri oficial premiou um filme sobre um internato de loucos feito só de partituras corporais e em preto e branco e também um outro muito doido sobre uma igreja revolucionária. Todos tinham seu valor e embora a minha inteligência ainda esteja estreita pra entender determinadas coisas, eu procurei abstrair qualquer expectativa e curtir.
Continuei ouvindo muitos comentários sobre meu filme e sobre meu nome. Meu nome eu até agora não sei de estava mesmo sendo tratado com ironia ou com admiração, mas procurei não pensar nisso.
Fiquei muito tempo decidindo se eu ia ou não pra festa de encerramento. O Éder ia pra boate e eu decidi então aparecer por lá só pra marcar presença.
A festa era um bar meio "inferninho". Cinco minutos por lá e as figuras icônicas começam a surgir. Um dos diretores premiados, com a superfície da pele meio esburacada, os lábios e os dentes escuros do fumo excessivo e olhos pequenos e ofídios, só falava de maconha. Estava louco pra algúem arrumar uma pra ele. Uma outra, sempre eloquente e por vezes meio agressiva, dançava acompanhada da colega de quarto que estava sempre quieta e tinha cabelos lindos escorridos pelas costas.
Tínhamos o grupo dos "descolados", que conversavam com todos e em segundos conheciam todo mundo e os dos "tímidos parasitas", que se grudavam em outros pra sociabilizar.
No tal bar tinha uma parede pra deixar recados e depois de deixar o meu, peguei um táxi e voltei pro hotel. Não fiquei por lá nem vinte minutos. No caminho, o taxista veio com um papo estranho sobre masturbação e eu entrei no hotel sem olhar pra trás.Apesar de ter percebido alguns olhares na minha direção, os gaúchos até agora tinham me passado uma boa impressão. Pareciam respeitosos e avesos a promiscuidade. O taxista devia ser uma excessão.
Vi um pouco de tv e me deitei.
Fiquei pensando em muita coisa... de certa forma, a premiação indicou um caminho preocupante. Eu sempre fui louco por cinema, mas minhas referências e sonhos estão muito ligados a um tipo de cinema que nem de longe se aproxima daquele cinema complexo e hiperestimado que eu vi na maioria das sessões. Alguns pareciam estar pensando como eu e acho que em suas camas talvez também estivessem pensando nisso. Ainda estou confuso quanto a como vou me comportar daqui por diante. Tem peças me esperando... e sei lá... tudo me parece muito turvo. Ficam me perguntando se vou continuar filmando mas eu honestamente não sei. O "Mate-se" aconteceu sem que eu esperasse e tudo que está rolando por causa dele, também. Não sei o que posso fazer pra continuar ou mesmo se terei meiospra isso. Ainda não sei o que pensar... Não sei mesmo.
Tentei esvaziar a mente e dormir... Pensar muito logo trazem à tona as dívidas que fiz pra viajar, os textos pra decorar, as idéias pra ter...
Amanhã é o último dia. Vamos ver o que vem... vamos ver.
 
Aí vai o trecho de uma reportagem que falava do meu filme:
 
"O tom cômico seguiu-se com o engraçado "Mate-se Você Mesmo" (Henrique Haddefinir), uma crônica sobre o suicídio e seus objetos. Forca, atropelamento, tiro, salto: itens discutidos por um casal, onde ela pretende dar cabo à própria vida, mas sempre fracassa na hora H - talvez pelos empecilhos colocados pelo homem, talvez pela falta de coragem dela. Um texto primoroso e ágil com alguns toques filosóficos em certos momentos são o ponto forte da história"
 
 
Porto Alegre - Dia 5
 
O Éder chegou na hora do café da manhã, subiu e dormiu.
Eu levantei às 09 da manhã e fui direto conhecer o Parque Redenção! Fiquei maravilhado!!!! Literalmente maravilhado! O espaço que eu mais queria ter perto de mim! Pra caminhar no fim da tarde, namorar... até transar! O Parque é imenso!!!! Lindo. Cheio de árvores. Com um arco no centro e uns laguinhos de um charme único. E com aquele frio... Não dá pra descrever!! Quem quiser conhecer, acesse o site http://www.aredencao.com.br/ que lá tem algumas imagens.
Cheguei ao Parque e logo após ficar bem uns dez minutos chorando de emoção, eu caminhei em direção a ferinha tradicional do parque. Graças a Deus comprei a maioria das coisas no centro comercial. Os preços da feirinha, por conta dos turistas, é bem salgado. E eu tive que fazer e refazer contas durante um tempão pra chegar a uma solução orçamentária.
Caminhei, caminhei e caminhei e quando estava voltando pro hotel, por voltas das 14 horas, percebi alguns casais gays namorando no gramado. Quando já estava achando o povo gaúcho extremamente moderno, percebi que a tal parada gay do qual o Éder vinha falando desde a chegada, iria mesmo acontecer. Um modesto trio do grupo Desobedeça, estava situado no centro da entrada do parque. As drags, que por causa do frio vestiam malhas cor de pele pra poder usar seus figurinos ousados, se espalhavam pelo parque entregando folhetos sobre a luta do movimento gay pra vencer o tradicionalismo do governo da cidade.
Fui correndo ao hotel e acordei o Éder. Trocamos de roupa e voltamos à parada.O Parque estava lotado! Muita gente linda e muitas famílias pagando pra ver. Ironicamente, era a minha primeira parada gay. E sem querer.
O Éder começou a paquerar um rapaz. Sabotagem ou não, a energia do Parque caía constantemente, atrapalhando a apresentação das drags. Por volta das 19 horas, a parada já tinha amornado e decaído. Frustrados, os gays que tinham a nobre intenção de fazer política foram embora e a parada se entregou a pegação de costume.
Voltei pro hotel sozinho, cantando e aproveitando o vento frio. O Éder ficou com um tal de Marcelo.
Eu fiquei vendo TV no hotel e quando fui pro PC escrever esse diário, o Éder apareceu com uma cara assustada perguntando se eu tinha dinheiro pra pagar o Taxi. Pegou um táxi e não sabia dizer o nome da rua do hotel, rodou até não poder mais pagar a corrida. Paguei o táxi sob a promessa de reembolso.
Dormimos.
Eram nossas últimas horas em Porto Alegre.
 
 
Porto Alegre - Dia 6
 
Acordamos às 06 da manhã.
Depois do café e de fechar a conta do hotel, partimos pro aeroporto de trem. Tudo correu bem na viagem até São Paulo. Os atrasos de sempre, mas sem alterações. Chegamos a Sampa ao meio-dia, passeamos por Congonhas e viemos embora num vôo que balançou como nenhum outro.
Ao chegarmos na rodoviária, acabei sendo vítima da síndrome de futilidade do Éder e tive um péssimo regresso à Rio das Ostras.
Mesmo assim, essa incrível experiência vai ficar marcada na minha vida como uma das coisas mais lindas que já vivi. Dormi nesse dia ao lado do meu amor e quando acordei, descobri que Deus estava me dando oportunidades de viver um pouco de todos os meus sonhos. Quero registrar um agradecimento a todos que contribuíram com isso de alguma maneira e dizer que aproveitei tudo ao máximo!!!
Foi tudo lindo. E inesquecível.

 
 
Dobrado Por Henrique Haddefinir às 19:24
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