Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

Sala de Projeção 2

Muito antes de ser o premiado diretor que levou para os cinemas a mágica de Tolkien e seus habitantes da Terra Média, Peter Jackson já começava a chamar a atenção do mundo para sua competência em retirar beleza do mal e do sombrio. Levou Kate Winslet ao seu primeiro degrau de reconhecimento quando lhe deu um dos papéis principais em Almas Gêmeas, filme que contava a história real de duas amigas dispostas a tudo para ficarem juntas. E junto com a indicação ao Oscar de melhor atriz que ela ganhou, o diretor marcou seu nome como um dos mais promissores da atualidade.

 

Poucos se dão conta de que Jackson começou com filmes de baixo orçamento e que a trilogia do anel ou a refilmagem de King Kong foram capítulos de ostentamento em sua trajetória cinematográfica.

Livre dela (pelo menos enquanto não confirmam seu envolvimento em O Hobbit), o diretor volta a falar do terror com inesperada beleza e nos apresenta o maravilhoso Um olhar do paraíso (The lovely bones – no original, o que seria mais digno do filme em sua tradução livre. Algo como “Restos Angelicais”). Nele, Peter descreve com delicadeza surpreendente o que acontece a uma menina de 14 anos depois que é assassinada brutalmente por um vizinho serial killer.

 

Filmes que se desmancham em pintura surrealista não são uma novidade. Talvez Brilho Eterno de um mente sem Lembranças seja o que mais marcou seu estilo desde que tornou-se bacana desconstruir a narrativa aplicando camadas de aparência lúdica na fotografia. Para exemplificar a complexidade de um sonho, os diretores resolveram perceber que ele deveria ser representado como é: sem nenhuma coerência visual. O resultado é um show de reviravoltas imagéticas que te surpreendem com uma riqueza impressionante. Algo que já tinha sido tentado em Amor além da vida, quando Robin Williams morre e descobre que o “céu” se reconfigura de acordo com os direcionamentos visuais do falecido. O que eu imagino, acontece. E essa é bem a premissa básica de Um olhar do Paraíso. Depois que a pequena Susie Salmon (salmão – como o peixe) morre, ela descobre que as dependências do céu precisam da colaboração do morto para funcionar.

 

Mas não pense que essa é só uma história sobre a menina que morre e descobre um céu colorido. Não! Essa é uma história horrível sobre um homem que assassina garotas e que tira de uma delas toda a maravilha que é estar viva. Sim, porque Susie é muito feliz. E o roteiro faz questão de demonstrar isso. Assim como a própria personagem, que narra toda a história de modo a comunicar ao espectador todas as impressionantes sensações de alguém que já morreu e que entende e observa tudo que está a volta (recurso sublinhativo que poucas vezes funciona, mas que aqui se aplica muito bem). Como em Almas Gêmeas, Peter Jackson foge do convencional. Como você acha que outro diretor filmaria a história de duas moças que matam a mãe de uma delas a pedradas para poderem ficar juntas? Porém, Jackson resolveu entrar dentro da mente delas. Caracterizar antes de tudo, que o amor entre as duas (a princípio nada sexual), era de natureza incompreensível ao resto do mundo. E ele vai fundo nisso. Representando magnificamente as nuances fantasiosas e ao mesmo tempo cruéis que permeiam a mente das duas jovens. Quando elas matam a mãe de uma delas, aquele gesto representa um complemento ao que foi visto até aqui e não um desfecho assustador para impressionar a audiência. As duas moças, que existiram na vida real, foram condenadas juntas e o juiz fez uma recomendação especial de que elas nunca mais se vissem, o que também ajuda a ilustrar que o que estava em jogo nessa história era mais do que o ato criminoso.

 

Aqui, o diretor também circula esses conceitos. Nos damos conta rapidamente, durante  o filme, de que estamos diante de uma história de horror e não de encantamento. Mas nos encantamos o tempo todo e somos logo depois, obrigados a lidar com o mal novamente. Sabiamente, Jackson não esquece e nem nos deixa esquecer que esse é um filme de suspense também, e nos presenteia com cenas de tirar o fôlego que ajudam e muito a não mergulhar o filme em uma expressabilidade pedante que é bem característica dos filmes que surrealizam conceitos dramatúrgicos. A bela atriz adolescente Saoirse Ronan empresta seus olhos ansiosos e tênues às cenas em que Susie tenta encontrar o caminho para a paz, mas ao mesmo tempo temos o gigante Stanley Tucci arrastando o corpo da menina pela casa para escondê-lo dentro de um cofre. E as cenas se sobrepõem. Nos oferecendo tensão e ternura. A rapidez necessária a um filme pop de suspense e a suavidade expressionista atribuída a um belo filme de arte. No final, quando o roteiro reafirma sua independência ao cair fora do maniqueísmo, já estamos tomados por uma energia curiosa. A bela Susie já nos transformou em seres frágeis de sua própria condição. Se pensarmos bem, a morte em si já é muito inconveniente. Vindo sem avisar e nos impedindo de cumprir nossos compromissos e realizar nossos sonhos. Mas a morte dos que nos cercam quando vem pelas mãos da violência é muito pior. Porque não conseguimos nos libertar da idéia do sofrimento dos que amamos. E Peter Jackson sabia disso tudo quando resolver filmar Um olhar do paraíso. Então porque não entender que a história da morte de Susie não precisava ser só sobre esse fim. Mas podia ser também sobre o que essa menina podia representar.

 

O roteiro é doce (quando dá a Susie a chance de realizar seu sonho mesmo pós-morten), mas também é duro (quando mostra o corpo de Susie sendo lançado dentro do mesmo poço de ferragens onde ela mesma ia jogar os destroços metálicos da família, numa cena toda emblemática). A história é pra apertar o coração, mas também é pra confortar e sorrir. É para sentir medo, mas também pra entender que algumas vidas são felizes porque foram curtas.

 

Como Susie diz, num final comovente como poucos, ela esteve aqui por algum tempo e depois partiu. E que todos tenham uma longa e bem sucedida vida.

 

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Dobrado Por Henrique Haddefinir às 23:26
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1 comentário:
De Monique Bomfim a 8 de Setembro de 2010 às 15:06
Um belíssimo filme sobre morte que nos dá mais ainda vontade de viver. E contando também com a grandeza de Susan Sarandon. Congratulations one more time, Peter!

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