Quinta-feira, 24 de Junho de 2010

Toy Story 3

 

            Quanto eu tinha entre seis e dez anos de idade, morava no interior do Rio de Janeiro, num lugarejo chamado Jerusalém, perdido no meio do nada, circundado pela belíssima Serra do Mar, colinas, mitos e uma igrejinha. Foi uma infância bucólica, rica em fantasia, ternura e uma certa dose de maldade. Foi um bom tempo, considerando o quanto pode ter sido boa a infância de um rapaz gay. Nesse tempo, que também era um tempo sem muito poder aquisitivo, a fantasia era o brinquedo mais precioso que tínhamos. Logo depois do almoço, e até o fim da tarde, o mundo real não existia e éramos tudo que quiséssemos. Com espadas de bambu e bonecos feitos de espigas. Entre as poucas aquisições de minha coleção modesta de brinquedos comercializados, havia um monte de bonequinhos de plástico, velhos, daqueles em que os pés eram grudados numa plataforma pra que não caíssem da mesa, alguns com braços faltando e totalmente misturados em gênero e forma. Eram uns quinze, acho. Havia alguns soldados, alguns heróis, um coringa, nenhuma mulher e um ou dois monstros. Ficavam todos guardados dentro de uma gaveta que ninguém usava porque era grudada na mesa da sala. E todas as noites, sempre na mesma hora aproximada, eles saíam da gaveta pra tornarem-se meus personagens. Seis deles tinham sido escolhidos para compor o elenco principal da minha “série”. Essa série era baseada nos recentes sucessos japoneses da época. Os outros dividiam funções de monstros, exércitos e coadjuvantes. As personagens femininas eram atribuídas aos bonecos de aparência mais delicada. A cada dia que saíam da gaveta, viviam uma nova aventura. Com roteiro, falas e finais felizes. Cada “episódio” durava em média uns dez minutos e a cada dia o protagonista da história mudava. Para mim não importava quem estivesse no meio da sala no momento. Eu precisava contar a minha série de história todos os dias. E se o roteiro daquele dia incluísse efeitos especiais, eles eram providenciados. Para acidentes de carro eram utilizados carrinhos de fórmula 1 que eram muito menores do que os bonecos, aliás. Se uma ponte precisava ser atravessada, uma atadura era desenrolada e amarrada entre uma cadeira e outra, para que os carrinhos pudessem passar por cima. E todo dia alguém explodia em algum lugar. Era uma delícia, e sem que eu soubesse, era a primeira versão do Henrique apaixonado por dramaturgia, fantasia e ficção.

            E essas memórias incluídas nessa imensa introdução, surgiram melancolicamente após a exibição ontem do tocante Toy Story 3, que te transporta para o fundo de sua origem pessoal e lida sabiamente com questões controversas como a necessidade de mudança e a finitude.

            O primeiro filme contava a história de Buzz Lightyear, um boneco astronauta, que na realidade em que os brinquedos têm vida própria, acreditava realmente que não era um deles. No segundo, a mudança do dono desses brinquedos fazia parte do enredo principal. Assisti ao dois há muito tempo. As tramas estava estabelecidas na minha cabeça e junto com elas, também alguma sensação de que os roteiros traziam à tona um sentimento de saudosismo infantil bem perceptivo. Agora, com essa tão esperada sequência, parece que tudo ganhou um grau a mais e a sensação ao sair do cinema é de redenção total. Misturado a muito prazer a emoção.

            A premissa dessa vez é imensamente mais inspirada: Andy, o dono dos brinquedos, cresceu. Ele não brinca mais. A estonteante abertura, com uma sequência de aventura de arrepiar e uma outra mostrando a relação dele com seus brinquedos, já deixa claro que o tempo está passando. Andy ama seus brinquedos, mas seguiu em frente. Os pobres esquecidos ainda veneram seu dono, mas sabem que estão condenados ao sótão e parecem conformados em dividir esse espaço com “os caras legais do presépio”. A partir do momento em que um engano faz com que eles acabem sendo doados para uma creche, a história ganha amplitude e te conquista inevitavelmente.

            Na creche, há a sala das crianças mais grandinhas, que já têm uma noção melhor de como fantasiar com seus brinquedos. Essa sala é dominada por um urso rosa com cheiro de morango. Ele engana a trupe de Buzz e Woody e os leva a sala dos menores, que como todos os bebês, só querem bater, quebrar e inalar os objetos. Todos os brinquedos ali foram doados porque seus donos não os queriam mais. É um mundo novo para Woody e seus amigos, já que ao passo em que sempre foram imensamente fiéis a Andy, jamais achariam que seu dono fosse desfazer-se deles. É aí então que o filme se redimensiona e começa a tratar de um tema pouco comum em animações: o conceito de doar, de desfazer-se, de abrir mão. Se num primeiro momento o primeiro pensamento é: nunca vou doar meus brinquedos porque se a possibilidade de que eles têm vida fosse remotamente possível, eu os estaria torturando. Mas ao mesmo tempo, não seria mais triste ficar preso numa caixa ou seguir para o mundo adulto de seu dono para ser apenas um artigo de decoração?

            O filme precisa deixar claro que ceder é importante, mas ao mesmo tempo elevou a mágoa dos brinquedos doados ao patamar mais avançado, criando vilões dignos de um filme de horror, como o bebê velho, careca e com um olho meio fechado, que representa toda aquela geração de bebês assustadores que nos olham satanicamente do fundo dos armários. Essa mágoa precisa ser resolvida e então levamos Woody a uma jornada de percepção onde ele entenderá que as mudanças são necessárias para viver novas experiências e que nem sempre quem passa por nós, esquece da nossa existência. Feito isso, o filme precisa então partir para as resoluções. Libertar os brinquedos da soberania do urso rosa e mandar a turma de Woody e Buzz de volta pra casa, para que lá o antigo dono decida o que fazer com eles.

            No meio do caminho, um show de reviravoltas, referências irresistíveis, piadas irônicas, insinuantes, brinquedos hiper bacanas e uma Barbie e um Ken que já valem o ingresso.

            Toy Story 3 é uma homenagem emocionada à infância. Ao mundo de fantasia que algumas crianças graças a Deus ainda parecem visitar constantemente. Representadas pela comovente cena final, onde Andy – o que cresceu – encontra a pequena Bonnie – a que ainda vai crescer – e provocam a linda convergência desses dois mundos. Ele oferece seus antigos brinquedos à ela. E ela, ávida por mais material para sua fantasia diária, os recebe como amigos de carne e osso, que ela, assim como eu anos atrás, vai tirar de suas gavetas e transformar em pessoas que respiram, falam, lutam, ganham e perdem. Mais do que um filme de animação com a habitual competência técnica, Toy Story têm um roteiro imbatível, emoções e humor dignos de um campeão Oscarizado, sensibilidade impressionante para um produto de uma indústria tão amaldiçoada e é simples e terno como um raio de sol depois de um dia de chuva. É uma história sobre perder. Uma incomum história para crianças sobre perder. Perder a ilusão. Perder a segurança. Perder um amigo... Mas também é sobre entender que o mundo funciona dessa maneira, porque para um amigo que se perde, no processo você ganha outro. E para cada Andy ou Henrique que cresce, haverá sempre uma Bonnie que tira os brinquedos da gaveta. E se nada disso que eu comentei ajudou a fazer com que você entenda o principal da questão, preste atenção nisso: Toy Story é sobre perder, porque doar sempre é perder alguma coisa. Mas é uma perda que compensa, já que alguém ganha. Então se você têm coisas que não usa e não dá porque as ama, não deixe que esse amor caia no amor não-praticante do tempo das pessoas adultas. Passe-as adiante para que elas “vivam” intensamente e possam ser amadas pra sempre.

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Dobrado Por Henrique Haddefinir às 20:33
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1 comentário:
De Monique Bomfim a 25 de Junho de 2010 às 20:03
Clap, clap, clap pra vc e pro filme. É tudo isso aí e mais um pouco q acontece dentro do coração ao assistir. Pq embora fôssemos as pessoas q riam mais alto dentro do cinema (vc percebeu?), fomos também tocados pelo belo, e até melancólico, significado. Nada paga o sorriso inocente e o descabido entusiasmo do Rex ao dizer: "Estamos indo pro lixão!" Valeu cada centavo do ingresso. And the Oscar goes to...

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