Quinta-feira, 30 de Junho de 2005

A Culpa no rótulo da tinta velha

Acabei de falar com a minha mãe pelo telefone. Ela lá no hospital e eu aqui no trabalho.
De todas as tristezas, eu não sei qual é a pior. A Flávia me explicou que a voz dela (distante e muito baixinha) estava daquele jeito porque ela estava dopada. Na noite anterior, havia ficado nervosa e a pressão subiu muito mais que o normal. Mas aquela voz... aquela voz desprovida de certeza. Todos esses dias eu estive oscilando entre um completo desnorteamento e uma culpa mais absoluta que as culpas de Eva. Nunca as mentiras que contei pra ela doeram tanto. Nunca as vezes em que a enganei em meu próprio benefício me fizeram tão mal... E a culpa é o que de pior pode haver no organismo e mente de uma pessoa. A culpa é como se fosse um ácido! Eu me lembro de uma vez, há muito tempo, naquele tipo de memória que a gente guarda sem saber exatamente porque, quando eu estava nos preparativos de uma festa pra uma amiga. Eu devia ter uns 12 anos. E nós íamos pintar as lembrancinhas que havíamos feito com papel. A tinta seria uma tinta velha que a minha amiga Lila tinha encontrado nas coisas do pai. Levamos um susto quando, assim que demos a primeira pincelada, a tinta corroeu o papel pouco a pouco. Como naqueles filmes de efeitos especiais em que as criaturas de outro planeta derretem depois de mortas. Como os aliens do Arquivo X... Acho que é assim que eu estou. Acho que é assim que meu cérebro está. Derretendo. E no rótulo da tinta velha do pai da Lila, devia estar escrito: CULPA.
Os filhos às vezes são criaturas pérfidas!
Eu sempre chorei quando me lembrava do dia em que eu estava indo ao Circo e queria uma grana pra gastar no caminho. Minha mãe não tinha e eu fiz cara feia. Quando estava quase saindo, ela me chamou, envergonhada, e me estendeu quatro notinhas que mal davam pra comprar uma pipoca. Eu me neguei e saí sem olhar pra trás. Ela chamou uma amiguinha minha e deu o dinheiro a ela. No final da noite, a pipoca mais gostosa que eu comi na minha vida foi comprada com aquele dinheiro... E eu nunca me esqueci disso. E nunca me desculpei com ela pela minha arrogância. Ela sempre tirou de onde não tinha, qualquer coisa que eu precisasse. E isso nunca foi o suficiente pra mim... E isso é tão estúpido! Hoje essas lembranças vão me fazer chorar muito mais. Vão me machucar. Porque eu nunca fui capaz de me redimir. Chega a ser imbecil. O velho texto do filho culpado, incapaz de reconhecer o valor dos pais enquanto eles estão bem. Eu não queria que fosse assim.
Ela vai ficar bem. Esse não deve ser um "post póstumo". Deus nos dará mais tempo. Talvez eu consiga falar com ela daquele dia. Do dinheiro da pipoca que eu rejeitei. De quando eu peguei dinheiro da sua bolsa e depois neguei até fazê-la sentir-se culpada por me acusar. De quando inventei uma amiga pra sair com um namorado. De todas as coisas idiotas que eu fiz apoiado na certeza de que sua condição de mãe perdoaria tudo! E sei lá... acho que no fundo ela nem merece ficar sabendo disso tudo. Não tenho o direito de despejar minhas culpas. Não tenho o direito de vomitar essas redimições pra melhorar desse enjôo. Eu não posso induzí-la a me fazer sentir melhor. Eu não tenho que me sentir melhor. Eu tenho que deixar essas culpas circularem pelo meu organismo. Mesmo que elas virem um câncer. A auto-flagelação sempre foi uma eficiente arte milenar. E embora eu não seja do time que amarga o fel da vida pra sempre, essas culpas eu preciso sentir por muito tempo. É o preço por todas as minhas faltas. Contando que a sensibilidade maternal reconheça-a através dos meus poros e perdoe.
O perdão é o clichê da vida que a gente não representa.
Dobrado Por Henrique Haddefinir às 15:54
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