Domingo, 25 de Janeiro de 2009

Diretriz

Hoje, dois dias depois de assistir "Wall-E" até essa imagem do pôster me causa certa comoção. A mesma sensação que veio à tona de maneira surpreendente depois de apenas vinte minutos de filme. Aquela sensação tão incrível de magia e envolvimento que desde os tempos de "E.T" não tomava conta não só do meu íntimo, como do de muita gente que entrou desavisada nos cinemas e não saiu dali a mesma.

 

Na década de 80, Steven Spielberg colocou seu nome na história definitivamente ao criar o maior símbolo de catarse humana da história do cinema mundial: o "E.T.". E isso é indiscutível. De maneira quase assustadora, a história do "E.T." alcançou o imaginário e consciente coletivo de adultos e crianças, formando uma conexão visual e emotiva que se estabilizou no universo infantil da época e cria ludismo até hoje. E falo por mim mesmo, que quando o filme foi lançado, não fui vê-lo no cinema, assistindo-o na Rede Globo anos depois, e indo sem perceber na mesma maré de emoção. Nas comemorações dos 20 anos de lançamento do filme, em 2002, uma série de bonecos foi lançada em vários tamanhos. Lá estava eu na loja, garantindo o meu, para colocar na minha estante e satisfazer aquele desejo tardio da infância.

E tudo por causa de um boneco que pra época nem era tão bem articulado assim, que fazia as vezes de um alienígena perdido na terra e que encontra abrigo e amizade com um garoto meio perturbado. Porque Eliot em diversos momentos soa de uma obsessão quase adulta.

O filme, inclusive, tem diversos momentos de absoluta sombriedade. Planos escuros, sempre do ponto de vista das crianças, com adultos aparecendo por vezes da cintura pra baixo. Imagens angustiantes e certa dose de crueldade e malícia. Spielberg foi imbuído de uma inspiração devastadora, que resultou num filme que une de modo quase sobrenatural, os elementos responsáveis pelo constante flerte infantil entre o mágico e o sombrio e pela natural inclinação adulta para a nostalgia.

 

Anos se passaram. A tecnologia criou outros bonecos interagindo com humanos e universos totalmente computadorizados que não ficam devendo nada à realidade. Mas nunca, nunca conseguiram atingir o grau de envolvimento emocional que o "E.T." conseguiu.

Nunca, até agora. Pelo menos pra mim. Que reconheço a falta de força comercial que "Wall-E" tem, mas que não posso negar o quanto ele foi mágico, intenso, engraçado, triste, enfim... Reuniu aqui, os mesmos elementos que tantos outros roteiristas já tinham reunido em animações anteriores, mas que conseguiu com ele, um resultado antes impensável.

 

A história não poderia ser mais simples: Wall-E é o último robô de uma linha de compactadores de lixo que está no deserto planeta terra tentando limpá-lo de toda a sujeira deixada pela humanidade antes de partir para o espaço. Incansávelmente, ele continua seu trabalho mesmo depois que todos os outros de sua linha, param. Como companhia, ele tem apenas uma barata. Tudo muda quando um outro robô é mandado à Terra para verificar se alguma vegetação conseguiu sobreviver à devastação. E é isso. Apenas isso. A questão é que durante os incríveis quarenta minutos em que não há um só diálogo na produção, a maneira como eles vão construindo e nos apresentando a rotina de Wall-E é tão tocante e encantadora que não há como não mergulhar no mundo do personagem. Tudo é tão sensível. É como se todo o filme ficasse envolvido numa atmosfera de "tristeza adocicada". Você ri, mas naquele sorriso tem uma informação pesarosa que se confunde com aquela magia e que acaba provocando uma catarse absoluta.

  

 

Tudo a respeito de Wall-E é encantador. Desde sua rotina romântica até sua aparência abobalhada, que lembra aqueles garotos sensíveis da escola, nos filmes adolescentes, que você não dá muita atenção, mas que acabam se revelando irresistíveis em sua personalidade frágil. É curioso notar que tanto ele quanto a robô Eva, tem como eles mesmos chamam, "diretrizes" muito claras. Cada um foi feito com uma missão definida, mas algo nele é despertado pelo convívio com o que sobrou da Terra. Ele tem um olhar panorâmico, delicado, facilmente atingido pelas pequenas belezas terrenas. E cabe a ele mostrar à Eva (que seria o correspondente direto da nossa sociedade fria e individualista) que ela pode fazer mais do que cumprir com sua diretriz. E há algo de incrivelmente intenso e conector na solidão que ele compartilha com a platéia. O cartaz logo no início desse post explica muito bem isso. Existe uma solidão imposta tão cruel em "Wall-E" que isso te faz sair do cinema se perguntando até que ponto o cinismo habitual da vida contemporânea, presente sobretudo nos inteligentes, é realmente uma fuga ou uma grande burrice. As "mensagens" do filme, tão notáveis quanto execráveis pela crítica, não param por aí. Quer coisa mais genial do que mostrar os seres humanos fugindo de uma Terra inabitável e indo morar numa base espacial, onde os robôs fazem tudo, inclusive te carregar de um lado pro outro, e onde todos acabaram se tornando obesos por conta do ócio pleno e intocável?

 

Spielberg criou um mito da fantasia cinematográfica. A "Pixar" acaba de criar outro.

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Dobrado Por Henrique Haddefinir às 19:23
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