Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

Insensata Diversão

Terminou semana passada a novela Insensato Coração, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, entre protestos de censura, mistérios superficiais e muita diversão. A novela, que em termos de sucesso e barulho, foi uma das mais bem sucedidas do horário atualmente, pode ser encarada como uma obra em três atos muito bem definidos.

 

O primeiro ato, claro, começou no primeiro capítulo, com a maneira apoteótica com a qual Pedro e Marina se conheceram. A novela teve um aspecto curioso, que geralmente não vemos dentro do padrão estabelecido de criação: ela teve linhas de tensão que foram trabalhadas muito lentamente. Ou seja, a trama foi pensada muito antecipadamente e os nós dramáticos foram sendo atados sem pressa. Se pensarmos na Insensato Coração das primeiras semanas, vamos notar que nada do grande sucesso que ela obteve se anunciava naquela organização aparentemente aleatória de núcleos. Um bom exemplo disso é a história do homofóbico assassino Vinícius. Ele apareceu muito pouco nos primeiros capítulos, namorando a irmã de Camila Pitanga, mas essa aparição já servia pra dar indicativos básicos de sua personalidade violenta. O mesmo para o homossexual Eduardo, que no começo incorporava uma sensibilidade em sua interpretação que não anunciava nada, mas que sugeria o caminho específico para alguma mudança, já que o namoro com Paula parecia tudo, menos passional.  Nesse início, tínhamos os principais pilares da história apenas se desenhando. Norma era uma ingênua enfermeira namorando Leo e o banqueiro Cortez parecia apenas um mau caráter clássico.

 

 

O segundo ato pode ter seu início entendido a partir da reconciliação entre Pedro e Marina (depois de uma série de acontecimentos que encheriam uma outra novela) e da ruptura de valores de Norma, sendo perseguida na cadeia por uma irreconhecível Cristiana Oliveira. As tramas principais estavam ainda caminhando ao ponto exigido para que as tensões provocassem o clímax, tanto que Leo há essa altura, ainda aplicava pequenos golpes e Cortez era só um homem sem caráter que manipulava a mulher. Foi dentro desse meio de trama, que se formaram os laços entre os coadjuvantes que viriam a conquistar a audiência, mas que foram sabiamente adiados até a hora certa, quando sua exploração não correria o risco de ser saturada.  Bibi e Douglas, que pareciam perdidos dentro da novela, foram reservados para esse momento da novela, para que as curtas possibilidades de conflito fossem condizentes com a vida útil do folhetim. 

 

O terceiro ato começou quando Norma enriqueceu e levou Leo para ser escravizado em sua casa. A partir dali, todas as linhas de tensão estavam estabelecidas e viraram o sonho de consumo de qualquer autor: tudo estava tão armado que era só aproveitar  as possibilidades à vontade.  A ansiedade pelo destino de Leo, pelo desmascaramento de Norma, pela saída do armário de Eduardo, pelos conflitos  criados pela descoberta da paternidade de Vinícius, pelo destino de Natalie  sendo casada com Cortez... Enfim, estava tudo pronto, e como o fim não estava distante, tudo pôde ser abordado sem enrolação.

 

Como em todo último capítulo, muitos erros de coerência são cometidos, mas perdoados pela finitude dessas decisões. Wanda não era o tipo de pessoa que matava, mas a traição com as perspectivas da personagem em nome do suspense, não a ameaçava por mais capítulos. O recurso do quem matou? é uma marca de Gilberto, mas lançar mão dele é muito mais útil quando a trama carece de intensidade, o que não era o caso de Insensato Coração. A história, cheia de vilões interessantes, reviravoltas inesperadas, ganchos diários, resultado de um planejamento absoluto que deve virar via de regra para qualquer novelista. Além disso, nada foi mais divertido do que acompanhar as frases hilárias de Bibi (que deviam ser publicadas), os devaneio de Natalie e Douglas, o surpreendente carisma de Roni, e tantos outros personagens marcantes da trama.

 

Por fim, nenhuma outra história deu tanto espaço para os gays como essa. Eram vários personagens, várias expectativas formadas e uma campanha contra homofobia que teria sido melhor sucedida sem a interferência direta da direção da emissora, que se sentiu acuada com a massividade dessas questões. A relação do homofóbico Cléber com a descoberta do filho gay talvez não tivesse sido tão apressada se não fosse essa interferência, que também baniu o casal Eduardo e Hugo da linha de frente dos capítulos. Por sorte, Gilberto adiou a elevação dessas questões gays para esse terceiro ato, o que impediu a reação conversadora de agir mais drasticamente.

 

Com a chegada da pretensiosa Fina Estampa, escrita por um cada vez mais megalomaníaco Aguinaldo Silva, damos adeus a uma novela que se organizou pelo bem da diversão do espectador, e que aproveitou pra fazer um importante merchandising social.

 

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Dobrado Por Henrique Haddefinir às 18:39
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1 comentário:
De Monique Bomfim a 25 de Agosto de 2011 às 22:02
E ficamos agora, com apenas uma dúvida: Cadê, Meryl Streep, Aguinaldo? Hein?

P.S: O que foi o Leo fazendo a morte do Cisne?

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