Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Pânico 4 - Velhas Regras, Mesmo Carisma

 

Em 1996, em meio a um desfile de expectativas frustradas no gênero terror, estreiava discretamente nas salas de cinema uma história chamada Scream (traduzida para Pânico, no Brasil) que pretendia  reviver os clássicos através de uma linguagem autorreferente que lidava com humor e inteligência. O criador dessa meta era um tal de Kevin Willianson, que depois de ser ignorado algumas vezes, teve sua idéia comprada pela Dimenson, que achou que trazer um gênio do gênero seria o mais coerente. Wes Craven, diretor que estremeceu Hollywood com A Hora do Pesadelo, entrou em cena e adorou o projeto logo de cara. Estrelas das séries da época foram chamadas para dar notoriedade ao filme e com muita sorte, conseguiram que Drew Barrymore entendesse muito bem o projeto e cumprisse seu papel da maneira certa. A presença dela dava um toque especial. 

 

Cinco minutos de projeção e já se sabia que aquele não era um filme de terror qualquer. Um dos teasers mais assustadores e inteligentes do cinema, cheio de frases que acabaram se tornando históricas, apresentava essa história que como nunca se esperou, chamou a atenção da crítica e carregou milhões pro cinema. Scream já era um sucesso. O texto espertíssimo de Kevin era um deleite e o assassino tinha tantas marcas registradas que como acontece com todo bom clássico, imprime-se na nossa rotina, no nosso inconsciente coletivo (um exemplo disso é o programa Pânico na TV, que no início tinha menções diretas ao título do filme e seu personagem GhostFace).

 

Quando 1996 terminou, já estava inaugurada uma nova era para os filmes de terror. O próprio Kevin lançou vários outros (Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, o mais famoso deles) e em sua cola vieram os famintos produtores que queriam também uma fatia desse novo nicho. Nesse ritmo, vieram os dois outros filmes da franquia. Pânico 2 ainda escrito totalmente por Kevin, era coerente, mas a pressa provocou reações e os motivos do assassino eram um pouco vazios. Pânico 3 teve problemas sérios com o roteiro. Kevin Willianson não podia dedicar-se ao filme naquela ocasião e o estúdio, receoso do já visível esgotamento da fórmula, não queria esperar e dispensou Kevin. O resultado foi uma terceira parte frouxa, sem o espírito da série, e com zero surpresa quanto ao assassino (embora ainda ligado à atribulada vida de Sidney). A franquia Pânico então adormeceu no tempo. Com ela, a carreira de Kevin Willianson como roteirista e a de Neve Campbell como atriz.

 

Isso até ano passado, quando rumores sobre um quarto filme começaram a pipocar na net.

 

Willianson voltou à ativa quando chamado para adaptar para a tv a série de livros Vampire Diaries. O estúdio queria o retorno e começaram as complicadas negociações, que quase não conseguiram Willianson como roteirista, o que felizmente não aconteceu. Está claro que ele é a alma do projeto e que Wes Craven entende essa linguagem como ninguém. As filmagens então começaram com o esperado elenco original. Mesmo Courtney Cox e David Arquete, que se casaram por causa do encontro no primeiro filme e já estavam separados, toparam voltar aos seus personagens, que no filme ainda são um casal (reforçando o conceito de metalinguagem que ganha ares assustadores).  Além de mais astros de séries para manter o espírito original. Dessa vez, com ainda mais fervor, já que muitos dos atores que toparam participar eram fãs da franquia. Temos Hayden Panetierre (de Heroes), Adrien Brody (de OC), Kristen Bell (de Veronica Mars), Ana Paquim (de True Blood), além de muitas participações especiais.

 

Data da estréia marcada, começou a minha ansiedade. Com 16 anos quando o primeiro filme surgiu, eu me encantei. Aquele texto bem humorado, cheio de referências pop e sagacidade era tudo que eu mais admirava. Aproximava você da história, te desafiava, não era vazio e inverossímil por mais que a história fosse. E essa paixão pela escrita de Willianson só iria se confirmar quando chegasse ao meu conhecimento aquela que considero a obra adolescente mais contundente da TV mundial: Dawson’s Creek.

 

Semana passada, para meu deleite absoluto, chegou o momento de ver esse tão esperado quarto filme. E posso dizer a vocês, meus poucos leitores: É maravilhoso!! Não desaponta nem o mais ferrenho fã da franquia e ainda nos presenteia com um panorama sobre o cinema de terror atual que é no mínimo irresistível. Minha alegria foi tanta e se reverbera em mim com tanta insistência que chega a ser difícil contê-la em prol de um texto coeso.

 

 

Poupando vocês de um óbvio resumo da história posso dizer que a metalinguagem da metalinguagem ainda funciona muito bem quando o assunto é a analogia. Brilhantemente, as motivações do roteiro se combinam com as motivações do assassino da vez (que é tão bom que quase supera Billy e Stuart). Mais importante que matar ou não a heroína Sidney, é avaliar o papel dela no inconsciente dessa sociedade fictícia que a rodeia. É como diz o assassino (nesse volume, cheio de bons diálogos) em dado momento: você sobreviveu e foi embora, Sidney. Mas a cidade ficou. E vamos combinar que vivemos num mundo em que não é mais tão incomum que pessoas acreditem nos benefícios da fama com tanta força que são capazes de reproduzir eventos violentos para então justifica-los com as mazelas da juventude (vide Columbine, Wellington Menezes...). Pânico 4 nunca esteve tão coerente quanto agora. E o assassino dessa vez tem eco real.

 

Mas não pense que o filme tenta se intelectualizar demais. Kevin sabe que seu forte é o humor e o charme do filme volta com força total, num show irresistível de referências pop que incluem, por merecimento, ícones criados dentro da própria mitologia da história. Pânico pode citar-se porque justamente possui força mitológica. E somos então presentados com momentos maravilhosos em que enxergamos a homenagem e ao mesmo tempo, o  desafio. Os assassinos se revelam  como no original, mas agem de maneira surpreendente. O filme flerta com a reinvenção , para então recuperar a sobriedade e ainda fazer Sidney dizer isso: Primeira regra de uma boa refilmagem: nunca subestime o original. Temos  mortes incríveis, sequências surpreendentes, sustos adequados... A segurança desse roteiro fica tão visível e é tão honesta com seus fãs que chega a emocionar.  Kevin estapeia com tanta força os outros filmes de terror que ultimamente temos visto que não dá pra ignorar. E assim como no primeiro, a crítica se rendeu e aplaudiu (o que como fã, desejei ardentemente).

 

Craven fala em uma nova trilogia se o quarto der certo. Torço para mais dois filmes de diversão, embora não enxergue outras possibilidades de envolver a vida de Sidney nesse processo de motivação criminosa. Ela já teve namorado assassino, sogra assassina, irmão assassino... Sua árvore genealógica foi eliminada durante esses anos todos e uma hora as motivações de vingança e notoriedade não vão mais funcionar.  Ainda confio em Kevin e vou apostar se realmente acontecer, mas se pararem aqui, já vai ter sido muito bom. 16 anos depois eu mudei muito, como os atores, os personagens, a vida, o cinema... mas aquela essência primal ainda está aqui. Vive avaliando o presente com tiradas sábias sobre o passado. E assim funciona Pânico 4. Novas regras visando as velhas. Mesmo carisma atravessando o tempo.

Tags:
Dobrado Por Henrique Haddefinir às 19:27
Link | Dobre (comente) | favorito
|
2 comentários:
De Mulher Cupuaçu a 30 de Abril de 2011 às 00:45
Nossa, adorei o post! Vc descreve o filme com tanta paixão que me deu vontade de assisti-lo novamente! Aliás, vou me programar para encarar, sequencialmente, esta quadrilogia!

Parabéns! Vou acompanhar o blog!
De Henrique Haddefinir a 2 de Maio de 2011 às 18:20
Obrigado pela visita, Mulher Cupuaçi. Aliás, esse nome é ótimo. Alguma razão específica pra tê-lo?

Comentar post

Tudo Sobre Ele

Pesquisar Dobras

 

Setembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

Ontem

Voltamos já...

Fundo Sem Garantia

Um "Eu Amo GLEE" enorme n...

Glee, sua linda.

A Cabecinha do Hond#$%@##...

Sala de Projeção: Marilyn...

Titanic 3D

Agora sim...

Tô quase me rendendo...

Thammy Ae!

Vida Real Pra Quê?

Lua de Sinteco

Sala de Projeção

BBB12 - Selva Dentro e Fo...

M-A-D-O-N-N-A Pra Quem En...

Páginas Viradas

Setembro 2012

Agosto 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Tags

todas as tags

Links

Autógrafos

Assine meu Livro
blogs SAPO

subscrever feeds