Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Sala de Projeção

Duplicidade

Dupla tentativa que resulta em quadruplo desinteresse.

 

Indicado por Ana Carolina Alcântara e Monique Bomfim, minhas amigas de faculdade, esse longa de Tony Gilroy foi vendido por suas críticas e slogans com  a seguinte frase: ainda há vida inteligente em Hollywood. Embora tenha sido um fracasso de bilheteria, foi alardeado por unir Julia Roberts (na época distante das telas) e Clive Owen (sempre belo), numa história de ação e suspense. E sem desmerecer a qualidade criativa do roteiro de Tony, fiquei  intrigado com essa superestima ao filme.  Dois agentes secretos, espiões, trabalham numa rede de intrigas e vendas de informações confidenciais entre empresas que brigam pela patente de produtos que podem vir a revolucionar o mercado. Inteligentíssimo, claro. Os dois agentes se apaixonam, mas por serem espiões não confiam um no outro. Razoável, ok. Narrativa fragmentada que conduz a um quebra-cabeça. Já vi isso antes... muitas vezes. O que parece ser não é, e o que seria mesmo pode também esconder outro será.  Reviravolta final dupla, entendo... Outro dia vi umas dúzias assim... Vejam bem, nada disso torna o filme ruim, muito pelo contrário. A direção é elegante, o elenco afiado e o filme exala dignidade. Mas  a apostila do centro de relevância detectado em tantas criticas e comentários eu não peguei na xeróx.  Portanto, se alguém aí souber me diga: Duplicidade é tão bom assim, porquê mesmo??

 

Rio

Não se esqueçam que caricaturas não mentem.

 

Às vezes, antes de ir ao cinema, entro no Omelete.com para conferir as críticas das estreias mais importantes da semana. Geralmente as criticas do site costumam ser imensamente coerentes, mas a do filme em questão, Rio, tinha uma má vontade que geralmente não vemos por lá.

Rio foi feito por Carlos Saldanha, um brasileiro cheio de moral depois de ter transformado A Era do Gelo num  sucesso de público e crítica. O filme era o maior sonho do diretor e bastam cinco minutos de projeção para entender isso. Rio é uma homenagem emocionada à cidade do Rio de Janeiro e seu roteiro e seus personagens são tão carismáticos que em meia-hora de filme você já mandou a defensiva para as cucuias. Sabe-se que a defensiva a que me refiro diz respeito a apreensão do espectador brasileiro diante da retratação americana para nosso povo e nosso cotidiano. É normal que seja assim, já que alguns diretores cometeram desatinos sem sentido em alguns momentos da nossa participação no cinema hollywoodiano.  E exatamente por Saldanha ser brasileiro essa cobrança com ele seria ainda maior.

É aí que entra a crítica do Omelete, que em detrimento de um filme grandioso e comovido (sabendo-se que por tratar-se de uma animação certas liberdades artísticas são permitidas – e no roteiro nenhuma delas é prejudicial à nossa imagem), preferiu dar atenção à detalhes medíocres como o fato de não termos Flamingos em nossa fauna ou de as bundas aparecerem várias vezes no longa. O crítico acusa Saldanha de não ter visitado nosso país como deveria e o chama de leviano. Mas será que o crítico anda no mesmo país que nós? Podemos não ter flamingos, mas as bundas nos sufocam com todo o sortilégio de nomenclaturas baixas.

A qualidade do longa é tão, mas tão superior a isso que chega a ser mesquinho desqualifica-lo por um preciosismo pretensioso desses. Vários são os países e culturas que ao serem representados em comédias e animações, sofrem uma maximização de conceitos e estereótipos e isso faz parte do jogo. Se for respeitoso não é nocivo. E o que temos em Rio é tão respeitoso e mágico que reclamar de coisas assim é tão pedante quanto prolixo.  E leviano. Aí sim, leviano.

 

Almas à Venda

Não venda a sua ao Diabo, guarde-a quentinha em nossas gavetas.

 

Já imaginou como seria se você pudesse se livrar de sua alma por algum tempo e guarda-la num potinho para consultas futuras? Pois bem, a empresa existente nesse longa alternativo estrelado por Paul Giamatti lhe oferece esse serviço. Você se desliga de suas perturbações interiores guardando sua alma num cofre para acessá-la quando quiser. E é Paul Giamatti, como ele mesmo, que busca essa redenção para quem sabe conseguir vestir de modo neutro o seu novo personagem. O problema é que há um tráfico de almas em ação e a de Paul  é roubada por uma aspirante a atriz. Com isso, Paul precisa ficar com a alma de outra pessoa e os efeitos dessa troca são o argumento principal desse lindo filme. Cheio de sensibilidade e humor refinado, o filme trata a absurda questão de maneira segura e nos faz lembrar muito de Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Mas não se engane. Almas à Venda não peca pelo excesso de poesia de seu primo criativo. É igualmente lúdico, mas muito mais pessimista. Vale uma conferida.

 

 

Comer Rezar Amar

Ver Bufar Lamentar

 

A resenha do livro de Liz Gilbert dizia respeito à fragilidade dramatúrgica da história pessoal da “personagem”,  mas que não prejudicava o leitor, já que uma escrita segura e esperta garantia os bons momentos desse livro.  Já a adaptação cinematográfica dirigida por Ryan Murphy (Nip/Tuck, Glee) acabou virando, talvez por não ser capaz obviamente de transcrever a sagacidade narrativa de Gilbert, uma bobagem sem tamanho. Se não fosse a fotografia, o filme não seria nem digno de menção. Sobretudo para os que leram o livro, a história sofre de relevância e conteúdo e abre mão de momentos que poderiam talvez, ceder ao roteiro algum tipo de clímax e nó dramático, porque esse é exatamente o problema com Comer Rezar Amar: ele não tem clímax. Ele não tem conflito. Maximiza o romance entre Liz e Felipe e reduz Wayans a um pontinho no escuro.  A própria jornada pessoal de Liz acaba soando estúpida,   já que não se pode dedicar mais que dez minutos do filme a traduzir suas perspectivas pessimistas (o que no livro é o tempo todo reforçado). O resultado é uma personagem rasa. Rasteira.  O que acho uma pena, já que torço pelo sucesso do diretor Ryan Murphy. Embora não pudesse imprimir sua ousadia no longa, ou trairia mais ainda a obra de Gilbert, achei que a escolha dele teria sido proposital  por ser inovadora, e o que vimos foi uma triste e inútil adaptação.

 

PS: Alguém saberia me dizer porque a Julia Roberts aparece em todo o material de divulgação do filme chupando essa colherzinha?

 

Alice no País das Maravilhas

Alice gótica toma Diazepan e vai ser sindicalista na China.

 

Tem um tempão que Tim Burton começou a deslizar por uma esfera de auto-caricatura do qual parece não sairá jamais. Seu estilo sendo impregnado em histórias clássicas acompanhadas de um excêntrico Johnny Depp e uma descabelada Helena Bohan Carter, já faz parte do nosso cotidiado. Funcionou em A Fantástica Fábrica de Chocolates e foi tolerado em Sweeney Todd. O problema é que o homem desembestou a fazer adaptações e achou que ia ficar bonito pra ele. O que ele fez com a Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, foi uma cagada tão sem tamanho que chega a dar pena.

Primeiro o exagero visual. Chega a dar enjôo. A vertigem é a mesma que sentimos quando assistimos Transformers 2 e Speed Racer. E esse excesso prejudica a empatia com o filme, que já sofre do terrível mal de não ter uma protagonista forte, simpática. Alice, bem no estilo Burton, é pálida, esquálida e cheia de olheiras. Parece um cadáver. Uma fã apática da saga Crepúsculo. E não sei porque raios ele achou que não podia contar a história original e sim uma versão "moderna", com Alice voltando à Wonderland para salvar o país da Rainha Vermelha. E olha que até aí tudo bem, se no final Alice não tivesse ido pra China virar gerente comercial (?). Despirocação total!!! Se não fosse a Bohan Carter mandando cortar cabeças o filme não valeria nem metade do ingresso.

 

Nine

Rob Marshall faz filme com nove motivos pra você não assistí-lo: chato, longo, escuro, tem a Fergie, tem o Day-Lewis se contorcendo, a Judi Dench canta, não tem clímax, não tem final e as músicas são um chute no ovo.

 

Há um tempão atrás, Rob Marshal  tirava do limbo o gênero musical e o levava de volta à ribalda do reconhecimento crítico, conseguindo para Chicago uma penca de prêmios. Eis que recentemente tentou repetir o feito com esse insípido Nine.

Pessoalmente, eu já não era tão fã assim de Chicago. Uma história frouxa, sem credibilidade e com protagonistas sem nenhum carisma.  O filme parecia ter sido todo construído em volta do número musical das prisioneiras, único com força dramática e criatividade.

Pois bem, em Nine a estrutura se repete para o bem e para o mal. Com um argumento ainda pior, sem nó dramático, sem clímax, sem charme, o musical também baseado numa produção da Broadway, é arrastado, pretensioso e busca bombear a emoção com notável desespero. Começando pela  escolha de Daniel Day-Lewis e Marion Cotillard para protagonistas, uma tentativa frustrada de impressionar a audiência. O filme reprisa o papel de Queen Latifah e dessa vez é Judi Dench que interrompe a narrativa para um chatérrimo número solo. Sem falar na figuração de luxo feita por Nicole Kidman e Sophia Loren.  O cenário onde a maioria dos números acontece é muito parecido com o cenário do número das prisioneiras em Chicago e é nele que acontece o único momento interessante do longa: o número cantado por Fergie. E vejam senhores, com uma base criativa idêntica a das prisioneiras.

Enfim, não é à toa que esse filme passou pelos cinemas e ninguém viu. Foi um maiores fiascos do ano passado e Marshal deve estar até agora se perguntando o que aconteceu. O que aconteceu? Vencer pela estética pode ser fácil uma vez, mas duas...

 

Amor e outras Drogas

Viagra nas comédias românticas injeta sagacidade em Hollywood.

 

Monique Bomfim do A Tonga na Mironga, diz:

Antes de ver o filme, li a crítica que o Rubens Ewald Filho escreveu. Ele disse que eram 3 filmes em um e que seria mais eficaz se o roteirista focasse apenas em um. Fiquei confusa, pensando em como teriam conseguido fazer isso. Fui assistir. Rubens, pra variar, estava certo. 

O irresistível Jamie (Jake Gyllenhaal) abandona a faculdade de medicina para aterrorizar a família, que é toda do ramo, e mostrar que é o dono da própria vida. Dá-se que Jamie consegue um emprego para ser representante de um remédio concorrente ao Prozac, entrando assim no ramo da indústria farmacêutica, destrinchando seus esquemas e falta de ética. Temos então, o roteiro número 1. Percebe-se também que o protagonista é avesso a relacionamentos e seu esporte preferido é o sexo casual. Ele encontra a parceira perfeita, Maggie (Anne Hathaway). Em meio a transas, quase turbulentas, Jamie e Maggie amargam a intensa dúvida se devem ou não se entregar ao amor e deixar o discurso de independência de lado. Apresenta-se o roteiro número 2. Acontece que Maggie, aos 26 anos, sofre de Mal de Parkinson no estágio 1. Jamie, a princípio, demonstra tranquilidade sobre a doença, mas sua certeza de que pode lidar com ela se dissipa aos poucos. O que se revela o roteiro de número 3. Todos são interessantes, com boas sacadas e bem inseridos na década de 90 (abordando o surgimento do Viagra e o uso de pagers). Porém, a pluraridade temática distorce o objetivo do filme, que acabam se tornando vários, dando aos espectador a chance de escolher o que lhe parecer melhor. O que incomoda é a escolha óbvia da trilha sonora. Cena divertida: Macarena. Cena romântica: cantora gemendo com um piano ao fundo. A década de 90 foi tão rica se tratando de música, tanto as boas quanto as cafonas, que poderia ser um trunfo para o filme, não algo enfadonho. Falando em enfadonho, depois de resistir a quase o filme inteiro, o roteirista se perde na pieguice do momento em que Jamie(em uma atuação péssima) perde perdão a Maggie no fim. Foi de cortar o coração de tão errado. E enquanto tudo se concentra em Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway, dou destaque a Josh Gad, que interpreta o irmão de Jamie, que nos dá todos os motivos para dar boas risadas.

 

As Dobras responde:

Rubens e você podem ter razão no que diz respeito ao roteiro, mas com um pouquinho de esforço, dá pra entender o que pretendiam esses produtores: uma simples e até admirável tentativa de fazer a diferença. Afinal de contas, de comédias românticas que se focam em apenas um ponto, os cinemas já estão cheios. Mas de um romance levemente cômico/dramático que tenha tantos outros desdobramentos, não vemos tanto por aí não. De fato, a vida e a história de ninguém é chapado por um só prisma e essas ramificações fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa. O que quiseram os roteiristas de “Amor e Outras Drogas” foi ir na contrapartida do que vemos por aí. O resultado pode ter causado um incômodo, mas não é de maneira nenhuma, negativo.
Quanto à trilha sonora, quando você precisa que seu roteiro demarque um tempo, uma época, ele precisa ser óbvio. Todos os maiores ícones de uma época, são por natureza, óbvios. Em qualquer filme de época, o que você verá são as obviedades, ou não vai conseguir transportar seu público pra sensação de nostalgia necessária pra absorver esse teletransporte. Datar uma história significa destacar o pop daquela época e não o cult. Até porque, o cult costuma transpassar o tempo. Não é datado.
Engraçado como o viéis da preferência é paralelo, não é? Exatamente aquilo que enfraquece o filme na sua opinião e do Rubens, é o que o fortalece pra mim.

 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 18:39
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1 comentário:
De Monique Bomfim a 29 de Abril de 2011 às 18:49
Morri. Vc realmente deu Ctrl C + Ctrl V no meu post e no seu comentário?! Não creio! rsrs
Detalhe: esqueci de fazer parágrafo...
Outra coisa: pela enésima vez, o nome do blog é A Tonga DA Mironga, porra. rsrs

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