Quarta-feira, 30 de Março de 2011

Cartas Para Julieta - Como extraviar um bom argumento

 

Era uma vez uma bela aspirante a jornalista chamada Sophie.

Sophie vive um relacionamento estagnado e uma carreira bloqueada por sua própria competência como investigadora de fatos. Um dia Sophie encontra numa construção antiga dentro da área histórica de Nova York uma carta escrita há cinqüenta anos por uma moça que não sabia o que fazer com a confusão causada pelo encontro com um grande amor. Sophie então decide encontrar a moça, seguir com ela (já uma senhora) numa busca por seu amado perdido e fazer disso o grande furo de reportagem de sua carreira.

 

Esse é o roteiro de Cartas Para Julieta?

 

Não. Mas poderia ser. O filme não poderia se chamar Cartas para Julieta, mas daria pra contar a história do mesmo jeito. Afinal de contas, a base criativa desse roteiro é o destino (fundamentação básica de praticamente todos os filmes românticos da nossa história) e no final das contas, a Julieta de Shakespeare e seu nervoso serviço de correspondência, acabam sendo apenas uma gordura necessária para envolver de substância histórica e charmosa esse confuso filme de Gary Winick.

 

A confusão aqui reside de fato na contradição argumentativa desse enredo. O filme começa para ser uma história sobre a influência da Julieta Mitológica dentro da sociedade moderna... Mas não! Na verdade o filme é sobre a influência dos conceitos da Julieta Mitológica dentro do idealismo romântico de cada um. E seria essa uma interpretação condizente com a natureza da personagem? Eu tenho minhas dúvidas.

 

Julieta é extremada e mortalmente ansiosa, não é muito indicada para falar sobre amores duradouros; e de fato sobre o que fala mesmo o roteiro de Cartas para Julieta? Amores duradouros... É bem verdade que duradouros sob o perigoso ponto de vista do cinema. Nocivos serão sempre os happy endings de Hollywood, e aqui nesse filme, nocivo também para a perspectiva pouco otimista de Shakespeare. Dá tudo certo demais, mesmo dentro de seu fingido caos, e a essência urgente e trágica desses dois ícones do amor inconseqüente vai ficando pra trás. O importante aqui é ser oportunista com Shakespeare: vamos só falar do amor enquanto medida de intensidade. Esvaziaremos de complexidade essa triste história e faremos dela um desfile de alegrias e paisagens. Mesmo as poucas lágrimas de tristeza derramadas em Cartas para Julieta não representam para nós nenhum risco. Pra quê se comover porque Sophie chora de saudades da mãe? Sabemos que Claire é sua nova referência materna. Pra quê sofrer com a busca de Claire por seu amado? Sabemos que quando ela estiver quase desistindo, ela vai encontrá-lo. E esse emaranhado de obviedades vai confirmando e respeitando a máxima das comédias românticas, mas vai traindo e maculando as propriedades shakeasperianas dentro da história de Romeu e Julieta.

 

Mas Henrique, porque você está baseando seu comentário numa comparação com Romeu e Julieta? Ora, por que o filme se chama Cartas para Julieta. Se o resumo no início desse texto fosse real e o filme se focasse nele, eu nem estaria tornando esse texto tão grande, mas Romeu e Julieta é representativo demais. Não futuque esse ninho de vespas se não vai agüentar as picadas depois.

 

Casais que começam se hostilizando, guerrinhas de comida, diálogos começados com “Você acredita em destino?” (embora o destino aqui seja a base do roteiro), garota frágil por ter sido abandonada pelos pais... Tudo isso ajuda a construir um bom roteiro de Sessão da Tarde que faturará milhões em Hollywood. E essas coisas são também, arestas de várias das obras de Shakespeare. Eu só acho engraçado como desde então, as vertentes mais confortáveis é que acabam sempre sendo aproveitadas, em detrimento do que torna Romeu e Julieta, por exemplo, verdadeiramente humano e real: a sombra, o engano, a morte.

 

Não se é realmente para esperar coisa parecida de Cartas para Julieta. Está claro, desde os primeiros cinco minutos, que as tais cartas vão ser postas para escanteio assim que o interesse romântico de Amanda Seyfried aparecer. O que poderia ser uma boa história sobre a absurda fragilidade feminina diante do amor – absurda a ponto de criar uma conexão real com uma figura mitológica que aos 14 anos de idade preferiu morrer a existir sem um homem – acaba indo feliz para a zona de conforto criativo.

 

 E não me entendam mal, o filme é realmente carismático. A fotografia natural italiana, a música, a condução açucarada da história, a brincadeira com a cena do balcão, o próprio Charlie ser a antítese do Romeu e ao mesmo tempo a antítese do que se espera de um inglês... Enfim, dá até pra se emocionar no final. Mas eu acho um desserviço para a nossa juventude feminina – e podem me considerar ranzinza por isso, não ligo – que o conceito de amor verdadeiro resvale na inconseqüência de uma busca utópica por um relacionamento que na vida real, não termina junto com o The End.

 

Sophie abandona seu noivo porque ele não cabe mais dentro de suas expectativas românticas. E mesmo quando ele diz: eu sou assim, ela não entende que o idealismo pode nos levar a quinze minutos de prazer  seguidos por quem sabe uma vida inteira de equívoco. O curioso é perceber que até Shakespeare, centenas de anos atrás, já tinha entendido isso. Romeu e Julieta não morrem para eternizar o amor verdadeiro. Eles morrem porque de verdadeiro nada tem esse amor. É inventado, torto, desalinhado e frágil. Estamos até hoje enaltecendo o amor como ceifação da vida e escrevendo poemas sobre isso. Fazendo filmes sobre isso. Quando é que as mocinhas vão parar de abandonar parceiros cada vez que eles deixam de ser o príncipe? Quando é que a vida delas vai começar a ser possível sem Príncipes? Sophie tem uma falsa modernidade, assim como Cartas para Julieta tem um falso argumento. Debaixo de todo esse verniz italiano, o que existe é mais uma vez, uma pobre e triste representação das insistentes mazelas do idealismo romântico.

 

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Dobrado Por Henrique Haddefinir às 19:30
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