Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

O Embuste 24 horas - Recado ao blog "Legendado"

 

 

Há oito anos atrás, sob muita expectativa, chegou ao ar uma idéia intrigante sobre um agente que teria um dia de sua vida contado em tempo real numa série de TV. Seriam 24 horas, uma hora para cada episódio e um compromisso de 24 viradas de roteiro até o final.

 

Três anos depois, na quarta temporada, 24 horas já não era um fenômeno de boas idéias. Como em toda boa série, construiu uma série de apoios mitológicos ligados principalmente a personagens. Essa acabou sendo também uma das maiores ciladas da série, que em seu compromisso de grandes surpresas acabou matando quase todos os personagens importantes e caindo cada vez mais num abismo de insatisfação. A partir da quinta temporada, as obviedades começaram a passar de aceitáveis para irritantes. A métrica dos roteiristas era sempre a mesma: terrorista bandidão que mata sem dó e que não é na verdade o manda-chuva, o manda-chuva que é um cara engravatado ligado ou à Casa Branca ou a um país de fama duvidosa, um traidor na UCT, um traidor na Casa Branca, Jack torturando porque quer, Jack matando alguém importante por não ter escolha, agentes da UCT com vidas complicadas para enrolar os espectadores, a UCT sendo invadida e burlada o tempo todo... e por aí vai. E essa métrica começou a ser repetida todas as vezes, e eventualmente uma ou outra virada dentro desse plot acabava conquistando a nossa atenção.

 

Aos poucos, a série foi passando de revolução a embuste. Éramos manipulados por uma mesma rede de raciocínio e cada vez menos isso soava prazeroso. O final da sexta temporada foi um vexame sem tamanho. Os próprios roteiristas, em um extra da sétima temporada, assumem o buraco negro em que vinham se enfiando desde então. E depois de uma sétima temporada razoável, iniciaram uma oitava que se não fosse por sua hora final, teria sido um fiasco irrecuperável.

 

Fico me perguntando: foi esse series finale tão alardeado como melhor que o de Lost? Eu devo estar louco então, porque a sensação que tive era de que estava vendo uma temporada muito ruim com um final um pouquinho melhor. Da primeira a vigésima terceira hora, nada nessa última temporada de 24 horas fugiu do esquema traçado para todas as outras. Nada! Porque quando eu achei que os roteiristas teriam coragem de levar a inconsequência da Presidente Taylor até o fim, eles caíram no patriotismo óbvio e a fizeram voltar atrás. Se 24 horas tivesse terminado com Jack sendo morto pela presidente numa ação bem sucedida de uma conspiração pela “paz”, aí sim, teria sido um grande final. Realmente revolucionário. Mas que idiotice a minha... Uma vez anunciado o cancelamento da série, os executivos da Fox correram para a imprensa para garantir: Jack vai continuar sua saga no cinema. Portanto, morrer no final era impossível. E contando com o fato dele já ter sido preso por chineses, ter tido a família quase toda morta, ter sido dado como morto, ter fugido umas três vezes, não haveria outro final para ele que fosse realmente surpreendente que não fosse sua própria morte. Dessa maneira, quem ficou nervoso com os últimos momentos do personagem esqueceu o cérebro em casa. Pra mim, chega a ser um desrespeito tentar nos enganar com uma quase morte que jamais virá a acontecer, visto que os próprios criadores da série já nos garantiram isso. Eles próprios! É como contar o final do filme e querer que a gente se choque com ele mesmo assim.

 

Até o momento em que a presidente ficou passiva com a sugestão do assassinato de Jack eu ainda achava que as coisas tinham salvação. Pensei: se Claudia Croitor escreve uma dúzia de desaforos sobre o final de Lost usando o final de 24 horas como base para comparação, é porque ela deve ter material para isso. Mas não, ela não tem. Porque a presidente muda de idéia depois de ver um videozinho emocional de Jack que parecia saído der um roteiro de ação do Michael Bay. E deixando mais uma vez a responsabilidade de serem maléficos sem arrependimento para os russos, sai de cena como uma mártir da verdade, mesmo em última instância.

 

Não é a toa que a não ser pelo blog Legendado, não vi uma só referência jornalística que tivesse dado meio minuto de atenção a essa última temporada da série. Nem mesmo para falar mal dela.

 

O curioso é que de tudo que aconteceu nesse episódio, a única parte boa tem total relação com todas as críticas feitas ao final de Lost. Jack e Chloe protagonizam o emocionante momento final de seus personagens (com destaque merecido para Mary Linn) numa liberdade emocional do roteiro que em tudo tem a ver com os encontros entre os personagens de Lost: a priorização da empatia do público para com aqueles personagens, mesmo que as saídas dramatúrgicas não compensem nossas expectativas. Intrigantemente, a ansiedade em demonstrar superioridade intelectual na rejeição ao final de Lost era tão grande, que valia a pena até mesmo enaltecer a superficialidade e obviedade absurda dessa última temporada de Bauer na TV.

 

E aí você começa a ponderar... Dá pra dar atenção a quem compara o final cheio de referência científicas, mitológicas, históricas, cheio de apelo emocional e complexidade psicológica de Lost ao final cheio de pólvora e maniqueísmo de 24 horas? É como comparar um roteiro de David Chase a um de Roland Emmerich. Não tem propósito. É um julgamento cretino, sem a menor coerência e substância, usado apenas pelos que não tem coragem de assumir sua insatisfação sem que tenha que fazer os outros de burros com isso.

 

Não devia ser tão importante pra mim dizer essas coisas, mas depois de anos sendo cativado pela sensação de que podia visitar esse blog certo de que alguém estaria aqui compartilhando opiniões sobre uma paixão em comum, com propriedade e inteligência, me senti muito ofendido quando percebi que tinha sido enganado, que mais importante que respeitar os leitores e argumentar com sensatez é manter cativo o público que aplaude a arrogância. Eu sou capaz de aceitar quem argumenta contra cavernas luminosas e submarinos inúteis, mas não posso ficar calado quando a minha defesa para essas coisas é tratada como uma deficiência intelectual, com frases pretensiosas cheias de comicidade tendenciosa e ironia. É insuportável quando você vê alguém usar argumentos contra criatividade e dois posts depois elogia a “competência” de quem guia os passos de Bauer. E mesmo quando esse blog assume a recorrência dramatúrgica de 24 horas, usa argumentos do tipo “a gente percebe a falha, mas deixa passar... porque Jack é o cara!”. Sim, ele é. Mas uma série não sobrevive enquanto discussão, diversão e relevÂncia, só porque o personagem é o cara. Não sobrevive. E não sobreviveu. Despediu-se capenga, com horas a mais de ambição que poderiam ter-lhe poupado um honroso lugar no hall das séries que souberam a hora de parar.

 

Que me perdoem aqueles que me acham apenas um louco que precisa defender sua obsessão. Esse não é um comentário sobre Lost ou sobre 24 horas. É sobre um leitor assíduo de uma jornalista que não escreve um blog pessoal, escreve um blog sobre séries, e esqueceu-se que o sustento dele depende dos leitores, mas mesmo assim resolveu ofender alguns deles só pra ser engraçadinha. Esse é um comentário que esperou toda a última temporada de 24 horas acabar na Globo, para ser escrito. Mesmo muito tempo depois. Para que fosse completo, embasado. Porque mesmo com rancor de toda comparação feita aos dois finais, eu esperei para ver tudo, para que eu não cometesse uma injustiça horrível com uma última temporada que talvez tivesse sido realmente muito boa e terminasse sendo um cretino com os fãs que talvez tivessem toda razão.

 

E me poupem do GET A LIFE. A cultura nerd prevê a importância demasiada a elementos sempre tão complicados de serem compartilhadas com outros, sobretudo para os que não moram no eixo principal das capitais, como eu. Não forcem a barra. Faz décadas que é um preconceito cafona achar que quem “perde”muito tempo com heróis, miniaturas e ficção científica é um loser. Ao menos eu tenho condições verbais de reclamar. O que Claudia Croitor tem é uma dádiva: a chance de ser lida. Para os que escrevem não há prazer maior do que o de poder ser lido. Discutido. Mas isso perde totalmente o sentido, quando vira um clube de afinidades, onde a divergência é tratada com o rótulo da estupidez, transformando todos os que discordam em pobres coitados inferiores que desconhecem toda a “verdade” da compreensão televisiva.

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 16:27
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