Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

Ainda Vale Tudo

 

 

 20 anos se passaram desde que Gilberto Braga resolveu falar sobre união civil entre pessoas do mesmo sexo na novela Vale Tudo e se a história se repetisse hoje, Laís e Cecília não teriam um destino muito diferente, não.

 

Encantado com a reexibição da novela que graças a Deus eu estou conseguindo acompanhar pelo canal VIVA, vou seguindo imerso nesse maravilhoso mundo da realidade carioca do final dos anos 80. E que deleite! A novela, mesmo com a falta de apuro técnico da época, ainda dá um tapa nas traminhas de meia tigela que a gente vê hoje em dia. Já lá, em 1988, Gilberto Braga já abria mão da hiper importância a respeito de conflitos como presidente-das-empresas-da-família e amo-meu-irmão-sem-saber, que alguns autores insistem em manter até hoje. Passione é um bom exemplo disso.

 

A um dia do final, a novela demonstra o monstro da recorrência que pegou em Sílvio de Abreu e não soltou nunca mais. Suas três últimas tramas, pelo menos, deram a suas vilãs o mesmíssimo destino final: presas, humilhadas, algumas cenas sem maquiagem na prisão, um plano de fuga ridículo, um pequeno terrorismo no penúltimo capítulo e uma morte metida a besta enfim. Sem falar no samba-do-crioulo-doido que a história dançou desde o início. Era pra falar de paixão, voltou a falar de crimes policiais (Silvio de Abreu nunca mais se recuperou do complexo megalomaníaco que veio junto com o sucesso de A próxima vítima). Alguns personagens sofreram brutalmente de sua covardia criativa (Marcelo Antony e Mariana Ximenes, principalmente) e vimos um show de tramas recicladas pioradas por vilões caricatos em emoções bombeadas de apatia. E sotaque italiano pela enésima vez, não dá! Um vexame total. E Sílvio só aumenta o cordão de decepções onde já fazem volume o equivocado Antonio Calmon, o pretensioso Aguinaldo Silva e o sem-noção Manoel Carlos. Se não fosse por João Emanoel Carneiro e sua surpreendente A Favorita, o horário das oito já poderia ser considerado o fundo poço absoluto. Até porque, lá já está o Benedito Rui Barbosa só esperando companhia.

  

Gilberto Braga escreveu Paraíso Tropical alguns anos atrás e ela não pode ser considerada um fiasco total. Graças ao bom trabalho dele no desenvolvimento de Bebel, vivida por Camila Pitanga, a novela escapou do fracasso. Bebel conseguiu tirar o vilão de Wagner Moura do caricaturismo e trouxe consigo alguns ótimos momentos da nossa televisão. Mas, a estréia de Insensato Coração pode, se ele não tomar muito cuidado, fazer com que seu destino seja a rodinha do naufrágio pra onde estão indo todos os seus colegas.

 

Enquanto isso não acontece, eu sigo me deliciando com Vale Tudo discutindo o direito de uma mulher a ficar com os bens que adquiriu enquanto esteve casada com sua parceira falecida. Isso visto agora, já é legal. Sabendo que essa era uma discussão dos primórdios dos anos 80 é melhor ainda. Evoluímos muito no sentido de poder discutir relações gays abertamente, temos telefones melhores e as pessoas não fumam loucamente em qualquer lugar, mas no cerne da discussão e reação social, Vale Tudo é de uma adequação ao presente que beira a genialidade. As pessoas hoje ainda são tão preconceituosas quanto eram antes. Beatriz Seggal e sua Odete amedrontada com a idéia de que a “amiga” de luto pela parceira dormisse em sua casa, é incrível. As pessoas sendo condescendentes em admitir a relação marital das duas, idem. A pobre Laís, sem o reforço da parceira de classe alta, voltando a ser um “objeto” inconveniente no meio da sala, com o qual as pessoas não sabem como lidar... enfim, impressionante.

 

Eu não gosto de ser saudosista, mas no que diz respeito às novelas reprisadas no Viva, não tem como não ser. É maravilhoso poder assistir Carlos Lombardi quando a valorização de uma boa idéia ainda era importante pra ele, poder assistir Manoel Carlos quando ele ainda queria retratar a realidade sarcasticamente manipulada da sociedade de classe média, e não fazer poesia visual com uma bossa nova tocando no fundo, e poder assistir Gilberto Braga trazendo à tona o que de pior reside nos que passeiam embaçados pela Av. Atlântica e o que de “melhor” reside em quem os observa.

 

 

Em tempo:

Amo Babalú!

Venero Abgail

Saúdo Branca Letícia de Barros Mota

Maria de Fátima é poderosa!

E Odete Hoitman é de matar de rir.

 

  

Update: Antes de publicar esse post Passione terminou e o que vimos foi um desfile decadente de obviedades que em nada redimem Silvio de Abreu de tanto equívoco. Tirando as bobagens de sempre como casamentos, partos e reuniões de família, o saldo final foi negativado e piorado pela vergonha de fazer com que o personagem de Bruno Gagliasso fosse “dividido” pelas duas mulheres que ele enganou durante a trama inteira. Embora ele estivesse mesmo lindo, nada justifica tamanho descaso com a objetividade feminina e tamanha homenagem ao machismo que nos rodeia. Duas mulheres lindas, inteligentes e jovens não precisam dividir homem nenhum. É uma tristeza ver uma idéia tão capenga ganhando ares de normalidade em rede nacional. E já tinha autor de novela fazendo isso lá nos anos 70. E se não bastasse essa pá de lama no que eu entendo como individualidade, ainda tenho que aturar uma última tentativa de fazer a Mariana Ximenes funcionar como uma vilã revolucionária. Já virou um tique do Silvio de Abreu fazer a vilã se dar bem no final pra que assim ele possa pensar que está sendo original e transgressor. E idiotamente, perpetua um senso de impunidade que faz qualquer idiota (e esse país está cheio deles) achar que com um bom planinho te salva das mãos da justiça. E põe “inho” nesse planinho! A tal da Clara deve ser boa mesmo em proporcionalidade, porque adivinhar que o carro ia cair na ribanceira, sem a moça ser lançada pra fora dele, que ele ia explodir, carbonizar o corpo e que mesmo assim não haveria suspeitas... Olha, que esperta – inclua sua inflexão irônica aqui – Nada melhor do que ver uma novela chamada Passione, terminar com um close na vilã triunfante, que matou, roubou, enganou, mentiu, torturou e mesmo assim foi premiada com o ato final e muito tempo pra continuar achando que vale a pena insistir no erro. Não me entendam mal, eu não sou contra homenagear o vilão de uma história, mas sou contra a justificativa explícita de um ato de violência, mesmo que esse ato seja contra um homem que tem desvios sabidos de caráter. A sensação ao ver o flashback que revelava o assassino do Werner – insira um sobrenome impronunciável aqui – era de que o autor queria amenizar o ato hediondo da Clara baseado num questionável senso de vingança da personagem por ter sido “abusada” dele na infância. E tanto segredo pra no final das contas, revelar um assassino óbvio numa cena pretensiosa que parecia ser mais uma bombeada do autor tentando sair de cena chocando e transgredindo.

E Reynaldo Gianechinni, coitado... Devia ter ficado em casa negando sua homossexualidade para os sites de fofoca, e não ter ido pro Projac gravar essa perda de tempo. Bola fora em seu currículo, de novo.

 

 

Dobrado Por Henrique Haddefinir às 20:06
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